7.1.07

O nosso Homem das Neves


O povo alemão está esperando a neve que não cai. Estamos quase na metade de janeiro de 2007 e nada. Assim, publico um texto que escrevi no ano passado. Boa leitura!

Moro num apartamento, nos fundos da “Markuskirche” (Templo São Marcos). Hoje pela manhã, acordei-me com o badalar dos sinos. Acordei um tanto ansiado mas logo me dei conta do porquê daquele sentimento. É que o ar que eu respirava estava viciado. Levantei-me e, sem pestanejar, desliguei os registros do aquecimento interno do quarto para, logo depois, abrir as janelas do mesmo. A brisa gelada tomou conta do ambiente e isso, em poucos segundos. Já com ar puro nos pulmões, fechei tudo de novo. Dali a pouco, sob o gostoso cheirinho de preto quente do café, saboreei uma fatia de pão integral com mel. Depois de toda esta liturgia, percebi o termômetro externo indicando quatro graus negativos.

Juntei minha agenda, alguns documentos para serem lidos e outros apetrechos numa mochila. Vesti-me para o enfrentamento do frio e lá me fui, rumo ao trabalho, com as mãos nos bolsos. A neve que caiu durante a madrugada presenteou a manhã com um tapete branco de dez centímetos, mais ou menos. Vou caminhando sobre ela com meus sapatos de couro brasileiro. Os alemães desconfiam da sua qualidade. Sustentam que não foram feitos para esta temperatura tão baixa. Eles aguentam o tranco, sim senhor. Prova disso é que meus pés não esfriam. Estou bem agasalhado com o sobretudo presenteado pelas Irmãs Diaconisas de Stockdorf. Enquanto caminho, sobre o meu chapéu vai se formando uma pequena camada de gelo. Mesmo assim, com todo esse frio, mostram-se alegres as pessoas que vou encontrando pelo caminho. Aprendi que elas curtem a claridade que o branco do gelo proporciona.

A mulher que entrega as cartas empurra a bicicleta amarela dos Correios que, ao meu ver, parece bem pesada. Ela sempre se mostra sorridente, de bem com a vida. Mais uma vez me cumprimenta com “Grüß Gott” (Deus te saúda!)! O policial que todos os dias circula na área com seu computadorzinho a tiracolo está vestido de verde, é simpático e também nunca deixa de me cumprimentar. As árvores estão recolhidas à sua intimidade e mesmo assim mostram sua força nos galhos desnudos e dormentes. Olho em volta e me dou conta de que 90% dos transeuntes usam roupas escuras. É que vivemos uma época caracterizada pelo preto e branco. Lembro que certo dia, depois de uma consulta, ouvi da minha médica: - “Sr. Becker! Agora, com a neve, tudo vai ficar mais claro, mais bonito. O sr. já vai se sentir melhor.” Fui para casa pensativo. Sim, ela tinha detectado depressão em mim. Depressão por causa da escuridão, da falta de sol, da falta de calor. Agora a neve estava aí, alegrando, impulsionando a vida dos dias que clareiam às 08h da manhã e que já escurecem às 16h da tarde.

Minha caminhada dura exatamente 30 minutos. Os carros estacionados têm uma camada de 20 centímetros de neve sobre si. Os motoristas manobram com cuidado sobre o asfalto liso. O sinal de pedestres me dá passagem e o carro pára antes da linha branca. Me sinto um cidadão. Logo ali na frente duas mães com carrinhos de criança, passeando. Discretamente olho para as mesmas. Elas não têm mais do que um ano de idade. Elas agem assim a conselho médico. Crianças precisam tomar “Frische Luft” (ar fresco). Ao chegar no trabalho, sou recebido pela minha secretária Bárbara, com um enorme sorriso no rosto: - “Ahaa! Ai vem o nosso “Homem das Neves””. Também sorrio retribuindo o gesto simpático. Digo-lhe que nunca tinha sonhado com este privilégio de poder experimentar momentos tão bons na vida. Entro no meu gabinete e começo a trabalhar. Antes disso, fico alguns instantes em silêncio para, depois, concluir: carecemos da simpatia, do sorriso de uns dos outros. Tenho para mim que essa postura sempre teve lugar comum entre os cristãos da primeira hora.


(Escrito em 26/01/2005)