7.7.10

Minha relação com o ME!


É quase madrugada. Dizem que depois dos 56 anos o sono se apouca. Pra que rolar debaixo do cobertor se bate a vontade de escrever? Pois aqui estou: envolvido com meu teclado... Decidi me expor dez passos mais pra cá da parábola. Faço-o, pela primeira vez, abertamente. O que eu quero com isso: Deixar claro o porquê do meu afastamento das fileiras encontristas... Abraços!

Entendi o Evangelho em 1971, a partir do coração retorcido da Neusa; dessa santa-cruzense que foi evangelizada pelo Sérgio; desse evangelista que conheceu as Boas Novas a partir do engajamento do colega ...

Em 1972, num dos primeiros Encontros Nacionais dos Grupos ECO, lá estava eu. A palestra do colega Arzemiro (Ele ainda era muito jovem) ainda soa nos meus ouvidos. Ele falava do “Mundo do Zé”. Eu era o Zé. Engajei-me naquela proposta com tudo o que era e com tudo o que tinha.

De mecânico de fundo de quintal fui ser presidente de um grupo de JE. Isso me aproximou de um sem número de lideranças luteranas jovens. Retiros, Congressos, Grupo Vida Nova, PEPA (Paróquia de Estudantes Porto Alegre) eram a minha vida. Foi de dentro daquela realidade que deixei-me guindar para Ivoti (RS). Sim, eu queria ser professor catequista; evangelizar na Transamazônica. Vivíamos o “milagre econômico” em 1975.

Certo dia, no meio do almoço, soou a sineta na mesa do diretor. Todos largaram seus garfos e facas. O silêncio era absoluto. A voz do diretor dirigiu-se aos meus ouvidos: Renato Becker... Venha até aqui... Visita para você... Eu saí do meu lugar à mesa. Fui pra frente e, surpreso, recebi o abraço do meu “avô espiritual”. Suas palavras foram poucas, mas agudas: Quero fazer discipulado contigo. E lá fui eu de novo!

Optei pela Faculdade de Teologia. Conheci mais e mais lideranças. Em 1979 ouvi uma palestra que falava em “vida simples”; em “engajamento político”; em “fé e vida”; em “evangelização contextualizada”; em “jogo de cintura”... Ao redor de mim muitos sorriam. Umas daquelas pessoas mostravam acentos intelectuais e outras eram mais pragmáticas. Eu amava aquilo que se mostrava como um “corpo”. Minha noiva embarcou na proposta. Um mundo novo se abria. Decidi então abdicar de alguns caminhos que me eram oferecidos e isso, só por causa daquela “idéia”. Como Estudante de Teologia, continuei investindo o meu “eu” na proposta jovem. Atuei em Vila Scharlau (RS) e em Novo Hamburgo (RS), depois em Sapiranga (RS).

Um dia bateram à minha porta na Rua Pastor Dietschi. Era o futuro monitor do meu estágio, o Arzemiro que me convidava para trabalhar como Pastor Auxiliar em Porto Alegre (RS). Experimentei crises homéricas na grande cidade. Cresci para dentro da pastoral urbana. Aprendi a ser crítico enquanto novamente me envolvia com jovens. Eram os anos 82 quando fui enviado minha esposa e meus dois filhos para o meu primeiro Campo de Trabalho no Noroeste do Paraná. Minha tarefa: Continuar plantando as “sementes encontristas” naquelas paragens. Fiz o que pude. Aceitei o convite para ser pastor Evangelista da IECLB. Indispus-me com lideranças eclesiásticas estabelecidas. Lutei, sempre deixando claro a que vinha. Dois, três, cinco mil quilômetros não eram distâncias para participar das reuniões as quais era chamado. Dei tanto de mim que, em certos momentos, descuidei dos meus e ninguém me exortou. Talvez porque eu dava “lucro” ou seria boa “massa de manobra”.

Chamaram-me para servir em Cruz Alta (RS) quando eram os finais dos anos 80. Fizemos abaixo assinados em prol da então futura FATEV. Tínhamos que “pisar em ovos” dentro dos Distritos Eclesiásticos uma vez que as críticas não eram poucas. Criamos a Pastoral Jovem no Encontrão. Coordenei os primeiros dois grandes encontros em Santa Cruz do Sul e Cruz Alta (RS). Foi em Cruz Alta que também nasceu Missão Zero numa tarde fria de inverno, ao lado do “quentume” do velho fogão Wallig (herança de americanos). Viagens foram feitas; pessoas foram engajadas; diálogos foram forjados a ferro e fogo (não havia internet) a Direção da Igreja criticou; irmãos criticaram; cartas foram escritas; lutas foram lutadas e enfim nasceu Comunidade em Três Lagoas (SP). Designaram-me a ser o primeiro presidente deste projeto então considerado “arenoso”.

Daí veio a UDR (União Democrática Ruralista). Junto com ela vieram os sem-terra. Daí então veio a idéia de se trabalhar “política” no seio da IECLB, a partir de candidato oriundo das fileiras luteranas. Daí veio o controle telefônico a partir dos “Serviços de Informação”. Daí veio um grupo de apoio encontrista. Daí veio uma “estrada íngreme” que decidi trilhar por causa das marcas que experimentara no ME. Daí veio a rejeição. Daí veio a berlinda. Daí passei a ser “esfriado” no referido Movimento. Daí me ofereceram um “band-aid”. Daí me sugeriram Florianópolis (SC), para começar de novo; para me acalmar; para me “enformar”. Ah! Aqueles articulistas... Ou seria um só o articulista no início dos anos 90.

Chorei sozinho. Esperneei até. Articulei Fóruns de Evangelização. Sentei em só meias cadeiras que me passaram a ser oferecidas. O fato é que curti profunda tristeza durante dez anos. O máximo que fizeram foi ouvir-me. Nada mais. Dez anos se passaram. Reconstruí-me e, enquanto me recolocava, já em Munique, ouvi terceiros... Lembro de um colega que disse: Lamento muito! “Esfriaram-te” porque um dos grandes mantenedores não contribuiria mais com nenhum centavo se permanecesses na “vitrine”. Hoje esta informação tem três anos e meio. Confesso que ela me fez bem.

Hoje, na reta final dos meus últimos dez anos de pastorado, faço uma caminhada “solo”. Talvez amanhã também adormeça como o Reinoldo, o Edson, o Homero. Não quero me despedir sem antes dizer que carrego uma enorme cicatriz no peito. “Anticorpos soldaram a ferida”. Sou testemunha de que há mais histórias como a minha. Histórias que foram tratadas apenas com “esparadrapo”.

4 comentários:

Clovis Horst Lindner disse...

Estimado Renato!
O teu testemunho de vida e a jovialidade ainda intocada aos 56 são uma grande reserva moral da IECLB. Ousar ser "não alinhado" é coisa para bem pouca gente. Tu és um desses caras que eu aprendi a admirar, não por ousares dizer que a pressão do teu grupo sobre a tua consciência transformou-te num autóctone, mas porque está escrito na tua biografia: "não aceito cabresto!" Parabéns pela tua coragem! Recebe minha amizade eterna.
Clovis Lindner

Andrea disse...

Queridíssimo e saudoso Renato,
Sinto que os anos que passaste em Florianópolis tenham sido de início um band-aid, enfiados goela abaixo e tenham te feito curtir uma mágoa talvez desnecessária, mas creio e agradeço profundamente a Deus por ter te colocado no nosso caminho e sido instrumento divino para mudar completamente nossa história e de nossas famílias.
São 10 anos por mim, e tenho certeza que por vocês também, lembrados com saudade e carinho!
Um abraço muito forte!
Com saudade,
Andréa

Walter disse...

Renato...

Acho que fomos parceiros aqui nesta linda Floripa, e as sementes que aqui plantaste ainda estão brotando aqui, e acolá.
Sei como é difícil fazer um resumão assim para chegar ao ponto focal, mas me pareceu que foste muito duro aqui com nossa gente, colocando que foram 10 anos de profunda tristeza.
Sei, e compartilhei contigo muitos momentos duros, mas foi também um grande aprendizado para nós todos.

Abração prá ti e Valmi

Valdenir disse...

Grande Amigo Renato,
Sim, somos amigos. Li o que escreveste. E reli. E meditei. E orei.
Se minha percepção estiver correta, nunca pretendeste dizer que a tua tristeza tem a ver com o trabalho que aqui fizeste, porque foi maravilhoso. Tampouco, com as gentes com as quais aqui viveste, porque são gente querida.
Se minha percepção estiver correta, tua tristeza tem, de certa forma, a ver com o dom que Deus te deu. Já viste em algum lugar um profeta aplaudir o Rei? Ou a corroborar as ações do Sacerdote?
Ser profeta significa estar na 'contra-mão'. E isso não é fácil.
Todavia, gostaria de te encorajar. O altar do Pai continua sendo um bom lugar para largar tudo isso. Sei que já o fizeste, pois afirmas que é página virada. Sim, deixe lá.
Solo chegaste e solo partirás... Contudo, não fazes uma carreira solo. É verdade, corremos pelas vias vicinais, secundárias, mas corremos contigo.
E com o presente que acabaste de receber, tua vida passará a ter outro brilho, acredite.
Assim, te convido a cantar: Pedro, Pedro, Pedro...
Pedro, homem simples...
Como o vovô.
Com muito carinho, Alemão.