23.5.08

Quarto 709


O telefone tocou e pediram que fizesse uma visita hospitalar. O tempo estava mormacento. O parque de estacionamento estava lotado. Precisei rodar um bom bocado para achar espaço, rente à calçada para bem guardar o carro comunitário. Caminhei até a “casa de saúde” um tanto apreensivo. A porta de vidro do prédio abriu-se automaticamente para a minha entrada. A atendente conferiu minha carteira de obreiro pastor e, com sorriso ensaiado, indicou o caminho para o elevador. Fui passageiro só até o sétimo andar, naquele cubículo móvel. No final do corredor, sim, ali estava o número 709 cravado na porta. Uma passagem marcada pela dor que as partidas fazem doer. No leito uma jovem senhora esperando um milagre. Era esposa de marido querido e mãe de filha pequena. Sentada, ostentando pequenas sondas pelo corpo, olhava-me com olhar sincero, escuro, penetrante e tingido de realidade. Meus olhos encontraram os seus. Vi o fundo da sua alma sincera. Ficamos em silêncio. Aprendi com a vida que têm horas em que não devemos dizer nada, mas ela queria sim, ouvir algo de mim. Disse-lhe que Deus se inclinava para ela tal como o pai do filho pródigo tinha se inclinado para receber o seu querido que voltava. Compartilhou que não perguntava mais pelo por que e sim pelo para quê daquilo. Depois de alguns instantes oramos juntos. Despedi-me. O barulho do solado dos meus sapatos marcava o compasso da minha tristeza. Passei novamente pela porta, a triste porta...

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