30.10.08

Nada é de graça!


De repente, no meio daquela manhã ensolarada, ouviu-se um barulho simplesmente infernal. Os ferros rangiam e os monstros amarelos roncavam. O cheiro fresco da terra revolvida se misturava ao da fumaça. Enquanto as lâminas frias de aço iam rasgando a colina bem ao meio, ficava evidente uma grande divisa.

E foi assim que as formigas do sul foram separadas das do norte. Folhinhas tenras que antes eram comungadas lá no alto do morro, passaram a ser propriedade das moradoras nortistas. Já as dificuldades das que viviam no plano mais baixo, sempre expostas às correntes de água suja, convertiam a vida das formigas sulistas em luta inglória.

E foi assim que as formigas do norte foram se dando bem, enquanto trabalhavam sem descanso. Já as do sul nem tanto. Com o tempo as formigas do alto da colina progrediram tanto que passaram a enviar pequenos ajutórios para as que moravam abaixo da linha divisória. Por sua vez as ajudadas se inclinavam demais, enquanto recebiam os donativos.

Passaram-se alguns invernos e as formigas do norte decidiram ousar mais: repartiriam em pequenas doses as suas descobertas com as do sul. Assim passaram a vir em equipes de estudo, através de minúsculos túneis cavados debaixo da estrada, e assim esnobavam o seu progresso. As formigas do sul, sempre admiradas, aceitavam tudo acríticamente.

Certo dia “choveu na horta” de uma das formiguinhas sulistas e ela teve a chance de visitar um dos formigueiros doadores. Numa sala de barro marrom e moído, estava um painel onde se via um mapa com todos os formigueiros do sul representados. Os marcados com minúsculos alfinetinhos verdes eram “os submissos”. Já os alfinetinhos vermelhos indicavam os “sujeitos à conquista”.

Na sua longa viagem de volta, ela refletiu que “nada era de graça” e seguiu seu retorno cabisbaixa. Um dia seus pares iriam entender o que acabara de entender...

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