23.10.09

Sensibilidade!


Na Bíblia o “” é citado 90 vezes. A “sola” do pé é lembrada 11 vezes e as “pegadas” que os pés deixam onde passam, oito vezes. Inicio a prédica para este Culto citando uma frase do poeta Jorge Luis Borges que, na oportunidade, tinha 85 anos: “...Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do outono...”

Estamos na primavera. A natureza nos convida a viver, a participarmos deste momento perfumado. É tempo de viver. Tire o casaco. Tire os sapatos. O meu pé, o teu pé, os nossos pés parecem ter se acostumado tão bem com a “jaula de couro” onde os aprisionamos, não é verdade? Tentem re-experimentar a liberdade que experimentávamos quando crianças. Tu e eu, nós nascemos com a perspectiva de andarmos descalços. Quem ousar repetir esta experiência perceberá que ela é muito saudável.

Pisar a pedra, o gramado... O tato dos pés nos ajuda a melhor ver e entender o mundo que nos rodeia. Por que sempre guardar os pés dentro do “cofre” de couro ou plástico, enquanto circulamos pelo mundo de Deus? É primavera! Amanhã, depois do verão, já será o outono, tempo de buscar abono, de lutar para ser o dono e, quem sabe, até sofrer abandono... Hoje é dia de conversão. Dia de comunhão, participação, do partir do pão, do sim, nunca do não. Hoje é dia de usufruirmos a oportunidade de sermos pessoas normais, de caminharmos descalços, de desnudarmo-nos diante do nosso Deus a partir da confissão que nos presenteia o perdão.

Outro dia, pé-descalço, fui varrer a calçada da casa onde moro na Rua dos Palmitos, 501. De repente, um ruído muito forte. Era um menino, orgulhosamente “montado” num carro de plástico movido a motor. Será que aquele garoto já teve a oportunidade de andar pé-descalço? Será que no futuro ele também só vai ocupar seus pés no orquestramento de pedais de freio e ou de embreagem? Será que daqui alguns anos as nossas calças já não virão acopladas de sapatos hermeticamente fechados? Eu sonho que a criança da minha rua experimente, tal como eu experimentei, o privilégio de tocar seus pés no chão, de jogar bola na grama, de pisar na terra e isso, pé-descalça. Ande pé-descalço. Abra tua guarda diante de Deus. Busque-O sem esquemas pré-articulados de proteção. Desenvolve tua sensibilidade. Sai de dentro de ti.

Muitas pessoas sentem-se mais próximas de Deus quando tiram os calçados. Na Bíblia, andar pé-descalço é sinal de penitência, de arrependimento, de humildade e de reflexão. Em Êxodo 3.4-5 se lê: “Moisés! Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa.” Em Josué 5.15 esse assunto se repete: “Josué! Descalça as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é santo.”

Você já experimentou caminhar descalço no templo da Igreja que congrega? Na capela dos estudantes universitários com os quais comunguei há três anos só se podia entrar pé-descalço. Foi lá que ouvi o testemunho de uma colega: “Eu amo andar pé-descalça dentro do templo, entrar em contato com o piso. Para mim esses momentos são de grande espiritualidade. Eu necessito de um contrapeso que me equilibre, enquanto trabalho com palavras, com textos. O Culto Evangélico é muito concentrado na Palavra.”

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera, e continuaria assim até o fim do outono...” Hoje é primavera, vocês têm 15, 25, 30 anos ou mais. O verão vem aí e amanhã já será outono. Vocês experimentarão 65, 85 anos de vida, mais ou menos. Sintam a vida hoje. Vivam a vida hoje. Não percam a vida hoje. Tirem os sapatos e circulem pés-descalços, bem devagar, lá no templo onde assistem os Cultos. Sintam a pedra ou o assoalho frio debaixo da sola dos pés. Caminhem sobre o tapete. Sentem nos bancos. Observem a cruz, as flores, a arquitetura, os paramentos. Percebam quantas mensagens silenciosas, prontas para serem ouvidas, percebidas somente pelos teus ouvidos, pelos teus olhos. Ouçam o que os teus pés “dizem” a respeito da experiência de andar sem sapatos. Digam sim para a vida, para Jesus Cristo, para o Espírito Santo, para Deus!

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