Busque Saber

30.9.11

O medo, a coragem e as mudanças!


Aqui e ali, converso com pessoas ligadas à nossa Comunidade. Outro dia dei atenção a uma senhora que continuava investindo suas forças no sentido de se acostumar com o estilo de vida da nossa cidade. Na nossa despedida ela se saiu assim: - Muito obrigada pelo seu cuidado para comigo! Não mude o seu jeito de ser.

Volta e meia se ouve uma palavra assim. Vamos combinar que o desejo desta senhora em relação a mim foi querido. Claro que foi! Agora, se nós não mudássemos o nosso jeito de ser, “estacionaríamos no tempo”; nos “solidificaríamos na história”. É assim que todas as mudanças que acontecem conosco; que todas as nossas experiências cooperam para o nosso amadurecimento; para o nosso “crescimento” para dentro da Terceira Idade. Se permanecêssemos sempre os mesmos, isso nos seria uma tragédia. Minha avó sempre dizia: - Um ramo verde a gente dobra com facilidade, já um galho seco é rígido. Se lhe aplicarmos um pouco de pressão ele logo se quebra. Quanta sabedoria!

Mudanças pessoais sempre são necessárias. Mesmo assim, muitos não querem mudar. Esse pessoal espera que os outros mudem. Mudar de emprego, de casa, de visual sempre é um bom exercício e até são muitos os que o praticam. Agora, mudar a si mesmo, essa é uma atitude um tanto mais difícil. Os terapeutas sustentam que, em alguns casos, as pessoas até têm a intenção de mudar, quando querem se libertar de algum peso como ansiedade e ou depressão. Problemas esses que sempre geram perda de controle; que sempre promovem pensamentos estranhos; que sempre oportunizam a desestabilização. Livrar-se de situações que provocam dor – quem não quer isso? Mas daí então, livrados do “mal”, como mudar o resto? Como vir a ser uma pessoa diferente sem o uso de alguma negação?

Ninguém consegue se “auto-esculpir” numa nova pessoa. As mudanças sempre vão acontecendo. Daí que levar esse fato em conta; envolver-se com tudo o que acontece à nossa volta é comportamento excelente. Mesmo que eu conseguisse me “formatar” num novo “design” eu teria pelo menos um problema: Como seguir adiante? Como continuar desenvolvendo meus planos? Como alcançar meus objetivos? Será que eles seriam mesmo os meus planos e os meus objetivos? Não seriam eles os planos e os objetivos dos meus pais; da minha parceira; dos meus pares; da publicidade que acabou de fazer “casa” em mim? Será que os planos e objetivos que eu persigo se ajustam ao meu jeito de ser? Luto em prol deles como se eles fossem uma espécie de “canga” que pesa e machuca meu pescoço? Será que não estou gastando muito das minhas energias; perdendo meu fôlego na tentativa de parecer maior do que realmente sou?

Os cristãos esperam que o Espírito de Deus lhes preencha; mova-lhes; promova-lhes mudanças; influencie-lhes. Para tal eles buscam orientação em Jesus Cristo. O apóstolo Paulo formulou esta máxima com maestria quando escreveu: “... Estamos sendo transformados na imagem de Deus de glória em glória pelo Espírito do Senhor!” (2 Coríntios 3.18b) Penso que não precise expressar que isso não significa que, a partir de agora, vamos ter que caminhar com o tipo de sandálias com as quais Jesus caminhava; que passaremos a usar barba comprida como as belas pinturas da Idade Média testemunham que os profetas usavam. Pelo contrário: nós passaremos a viver conforme a vontade de Deus; nós tentaremos nos enraizar no amor de Deus.

As mudanças, muitas vezes, não são e nem podem ser planejadas. Muitas vezes elas também nem se encaixam no contexto que estamos vivendo, mesmo se Deus esteja por detrás delas. Aqui pensei em Moisés e em Jeremias. Homens que, chamados por Deus para uma obra bem específica, sentiram medo... Mas isso já é outro assunto.

23.9.11

Não diga não! (Jeremias 1.5a)


O trânsito fluía lento. Os motoristas se mostravam inquietos. No meio do caos eu ouvia música. Já em casa, sentei-me no sofá para relaxar. No que eu estiquei as pernas, não deu outra: tocou o telefone...

- Alô!
- Oi pastor! É a Êlla. O senhor pode falar?
- Claro Êlla! Fale!
- O nosso pessoal quer conversar com o senhor.
- Qual é o assunto?
- É sobre o “chamado” que Deus faz para uns e outros. O senhor está lembrado do Arthur?
- Sim, aquele moço lá da zona sul da cidade.
- Isso! Ele compartilhou conosco que “ouviu” o “chamado de Deus” para “evangelizar no Morro Santa Vitória”! Temos muitas dúvidas sobre esse tema e precisamos da sua ajuda.
- Êlla! Avise o pessoal que a gente se encontra no sábado. Pede que leiam os dois primeiros capítulos do livro de Jeremias...
- Valeu pastor! O nosso encontro será às 20h. Legal que o senhor pode vir. Abraços!
- Tchau Êlla!

Sentei-me... Pensei no Arthur, no moço tímido da família Schweitzer. Lembrei-me então que o jovem Jeremias se entendia incapaz; inexperiente para desenvolver a “tarefa” que Deus lhe sugeria. Sim, Jeremias não se via como um bom orador para assumir tal “função”. Já o Arthur sim. Será que sim!? Será que não!?

Inquietei-me. Levantei do sofá e fui hibernar no gabinete. Sempre carreguei o sentimento de que não me cabe articular qualquer “plano” particular e, então, simplesmente partir para ação, como se Deus, somente Deus, tivesse sido o Sujeito da tal idéia. Folheei a Bíblia durante algum tempo. Paulo sugeriu aos cristãos de sua época que “Deus já nos escolhe no ventre da nossa mãe” para determinada tarefa (Gálatas 1.15-16). Essa informação sublinhava o conteúdo bíblico que eu iria trabalhar com a turma dos jovens. Deus já tinha escolhido Jeremias para engrandecer a Sua obra e isso, antes Dele ter nascido. Deus iria desenvolver Sua Proposta de Vida na pessoa de Jeremias, mesmo que ele se sentisse “incompetente”.

E quanto ao jovem Arthur? Ele tinha tido a “visão” de subir o morro Santa Vitória para “evangelizar”. O que será que ele entendia por “evangelização”? Meus olhos pousaram novamente no texto bíblico. Quando Deus dá uma “ordem” para alguém, esta “ordem” sempre se faz acompanhar de uma “promessa” (Jeremias 1.7-8). O jovem Jeremias poderia contar com a presença; com a proximidade de Deus, acontecesse o que acontecesse. Será que o Arthur desfrutava de tal “segurança”? Como o Arthur resolveria o problema da timidez no contato com as pessoas? Deus assessorou Jeremias (Jeremias 1.9). Será que o Arthur também seria assessorado?

Anoiteceu. Sentei novamente no sofá. Reli os 52 capítulos do livro de Jeremias. Sim, Deus escolheu o homem certo. Ele, durante 50 anos, falou com segurança, sempre alicerçado numa profunda reflexão. Isso, no entanto, lhe pesou sobre os ombros. Por quê? Ora, ele precisava “dizer” a vontade de Deus com extrema clareza às pessoas de sua época. Os historiadores são unânimes: O povo ao qual Jeremias foi enviado era extremamente “duro” de tratar. Aquela gente não gostava de ouvir as verdades nuas e cruas que brotavam da boca do “escolhido” de Deus. Elas faziam pressão constante contra Jeremias que, por causa disso, sempre corria risco de morte. E não era só isso que pesava sobre os ombros do profeta. Deus também o tinha incumbido de escrever suas experiências para que as gerações vindouras pudessem usufruir de bons aprendizados.

O relógio do sino da Igreja bateu 11 vezes. Era tarde da noite. Comecei a examinar meu “coração”. Também sou profeta. Claro que não sofro as agruras que Jeremias sofreu. Os tempos são outros. Mesmo assim, muitos não me entendem. Apesar do meu esforço. Aqui e ali ouço críticas que exercem pressão sobre mim. Coisa boa poder se apoiar na palavra de Deus: - Eu sou contigo! (Jeremias 1.8). Fui deitar. Demorei a dormir. Será que o Arthur tinha consciência do que lhe esperava?

Amanheceu. Malhei. Tomei café e dei andamento ao dia-a-dia da minha Paróquia. Lá pelas onze horas da manhã, escrevi um e-mail para a Êlla...

Oi Êlla! Nossa reunião não me sai da cabeça. Penso muito no “chamado” de Deus que o Arthur diz ter recebido. Hoje, poucas pessoas se engajam nas propostas de “agrandamento” do Reino de Deus. Uns se dizem muito jovens; outros muito velhos; terceiros dizem que lhes falta dinheiro; quartos afirmam dificuldades com a voz e assim por diante. Sabe Êlla! Creio que onde existe amor a Deus, ali também está a solução dos “probleminhas”. Carrego a impressão que parece ser este o sentimento que permeia a vida do Arthur. Concordas comigo?

A resposta da Êlla veio em 15minutos: - Oi pastor! Li com muita atenção os dois primeiros capítulos do livro que o senhor sugeriu. Parece que a “evangelização” não depende muito de se falar com eloquência ou não – isso Deus resolve. Ele sabe exatamente o que conseguimos fazer bem. Ele, com o tempo, mostra como melhor fazê-lo. Que tal? Evangelizar, missionar e diaconar – tudo tem a ver com o engrandecimento do Reino de Deus. Será que a gente não poderia se colocar ao lado do Arthur e, assim, juntos, assumirmos a “construção” de alguma “idéia cristã” geradora de mais vida no Morro Santa Vitória? Pensei em fazer esta proposta ao grupo hoje à noite. Como o senhor vê isso?

A noite prometia. A turma foi se chegando um pouco antes das 20h. Sentamo-nos em roda no salão do sótão. Coisa boa trabalhar com jovens que não resumem suas atividades apenas em festas e brincadeiras. Oramos e, de repente, a palavra estava comigo... Em Jeremias 2.13 se lê: “O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água.”

Vivemos momentos complicados. De modo geral a sociedade se enclausura; se encastela, desenvolve uma espécie de “ensimesmamento” pessoal; familiar e comunitário. Poucos fomentam “sinais de vida” no meio dos “sinais de morte”. Poucos buscam a Palavra de Deus para dar sentido à sua vida. A maioria prefere “alimentar-se” de informações que nada tem a ver com as propostas de Deus. Ora, podemos interferir. Martim Lutero disse que “a fé é a luz que ilumina quando o entendimento perde sua visão”. Proponho debatermos esse conteúdo que reparti. E então?... Arthur!... Levantaste a mão. Queres te manifestar?

- Pastor! Tenho assistido suas pregações. Também tenho lido seu blog. O senhor sempre desafia quem o lê a “escrever a história, não apenas sofrê-la”. Sou formado em Educação Física e nos últimos dias me senti chamado por Deus a fazer diferença no Morro Santa Vitória. O que o senhor me diz disso?

- Arthur! Então você quer repartir os seus dons e talentos no Morro, junto ao povo empobrecido!
- Isso mesmo Pastor. Eu já tinha repartido esta idéia com o grupo. A Êlla e eu conversamos muito.
- É pastor. Na realidade o Arthur não só conversa comigo, mas com todo o pessoal.

O Júlio não se conteve e puxou palmas para a Êlla e para o Arthur. A algazarra foi geral. Todos já desconfiavam que aquela relação já se mostrava mais como namoro. Participei da brincadeira e, logo depois, re-encaminhei o diálogo.

- Pessoal! O profeta Jeremias foi um típico jovem da classe média dos nossos dias. Se vivesse numa grande cidade, certamente estaria estudando numa das nossas Universidades. Sua rotina era igual a de qualquer jovem da nossa turma. Tudo corria normal até o dia em que Deus o “atingiu”. A partir desse momento ele começou a viver uma “revolução interior” que logo “explodiu” exteriormente.

A Êlla queria se manifestar e oportunizei-lhe a palavra:

- Entendo que quando alguém está a serviço de Deus, está a serviço e ponto. Não há como fazer diferente. Todos os caminhos conduzem ao determinado objetivo que Deus apontou para ser buscado. Os impedimentos acabarão sendo todos transpostos. Pessoas tocadas pelos dedos de Deus, não podem ser caladas. Quando, por um ou outro motivo, são amordaçadas, acabam morrendo de tristeza e insatisfação.

- Certo Êlla!

O Arthur e a Êlla entenderam a Palavra de Deus. Não sou mais seu pastor. Sei que seu trabalho vai “de vento em popa”. Mais de cinquenta pessoas voluntárias atuam no projeto que articulam (advogados; professoras; médicos; engenheiros; enfermeiras...).

Ora, Deus “plantou” Suas palavras na boca de Jeremias; “plantou” Sua força no corpo do profeta. Ele também “sonha” plantar Suas Palavras e Sua força nas nossas vidas. Que pena! Falamos demais de Deus; demais da nossa fé; demais nos Cultos. Agimos dessa forma porque ela é forma comum. Sobre o significado dessas falas, pouco nos preocupamos. Jeremias nunca mais calou sua boca, depois de experimentar o poder de Deus em sua vida. Trabalhou empenhando sua juventude e sua terceira idade num projeto de amor que visava a “vida integral” do seu povo. Dedicou sua vida em prol da luta pela experimentação da felicidade coletiva do mesmo. Negou-se a pregar um Deus com sotaque individualista. Para tal, contextualizou-se dentro do mundo, entre os que não queriam que Deus fosse Deus. Experimentou sofrimento, mas venceu. Lutou pela justiça, pela paz e pela integridade da criação. Circulou pela cidade sofrendo seus problemas na carne. Buscou soluções para as dificuldades vividas pelas gentes, sem se esquecer de enfatizar a conversão dos maus caminhos. Jeremias venceu.

Cadê você? A gente se vê, a gente se fala...

19.9.11

Água doce - água viva!


Em 2011 a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) decidiu refletir o tema “Paz na Criação de Deus - Esperança e Compromisso” e o tema “Glória a Deus e Paz na Terra” (Lucas 2.14). Em março deste ano, o Grupo da Legião Evangélica da Paróquia São Mateus (LELUT), composto de treze homens (todos na faixa de 60 a 80 anos de idade) passou a estudar este assunto. Os primeiros dois capítulos de Gênesis nos fizeram entender que o “Jardim do Éden” (Jardim da Felicidade) foi criado por Deus com “doçura” e “fertilidade”; que Deus fez sair desse “jardim” a água que agoa o mundo e que, hoje, infelizmente, este “jardim” tem suas portas fechadas. Nós, no entanto, desejamos retornar às nossas origens. Foi por isso que “mergulhamos” no assunto.

Aprendemos que a água doce pode “sequestrar” tanto ou mais gás carbônico do que as florestas, ou seja, que ela contribui para o controle das mudanças climáticas; que o Brasil é dono de 11% de toda a água doce do planeta e que, por isso, nossa nação está sendo considerada a “potência hídrica” do século 21; que a água escondida no nosso chão é um “tesouro”, um “grande bem”, que está sendo desperdiçado por culpa do consumo inconsciente da nossa população e pela falta de infra-estrutura que nosso Governo disponibiliza para gerir este recurso.

Vimos que se conseguíssemos concentrar toda água doce existente no mundo numa laranja, então esta água corresponderia a uma gota. Assustamo-nos com alguns números: um habitante da Alemanha, por exemplo, consome, em média, 130 litros d’água por dia; um morador dos EUA consome 382 litros diários; já um paulista consome 189 litros. Assim concluímos que se quisermos cuidar da água do planeta, precisaremos ter atitude: reusarmos nossa água; captarmos água da chuva para aproveitamento da mesma em fins não potáveis; contribuirmos com o meio ambiente, disseminando, por meio da prestação de serviços e testemunhos o seu uso consciente.

Ao cabo de algum tempo decidimos fazer algo prático, no sentido de poupar água; de ajudar a natureza. Decidimos então criar uma “ESTAÇÃO ECOLÓGICA PARA CAPTAÇÃO DA ÁGUA DA CHUVA”. Colocamos a mão na massa. A chuva fina não teve força para apagar a nossa vontade de agir. A primeira manhã e a tarde terça-feira foram ocupadas com a manufatura da “caixaria”. Quando foi quarta-feira pela manhã, o sol ainda continuava escondido e a chuva persistia. Mesmo assim se deu “duro”: Misturamos mais de dez carrinhos de brita; de areia e muitos sacos de cimento – tudo na mão. A quinta-feira testemunhou mais esforço. Colocamos o “monstro cinza” na sua “cama” e fizemos todas as instalações hidráulicas. Aí damos tempo ao tempo. Hoje está tudo pronto. O fato é que os aposentados da LELUT contribuíram com os dinheiros de suas aposentadorias; doaram dos seus serviços e, hoje, a referida “estação” já está em uso. Todas as calçadas da nossa Paróquia São Mateus já são sendo lavadas com esta água coletada de uma das “águas” do nosso telhado.

Inauguramos a mesma no nosso Culto do dia 18 de setembro, 09h da manhã. No início todos os homens trouxeram as ferramentas usadas no serviço e as depositaram sobre o altar. Havia muitas irmãs e irmãos presentes no Culto. A prédica versou sobre a “água”. No final aconteceram algumas falas: O presidente do Sínodo Norte Catarinense (SNC), sr. Elemer Kroeger animou-nos a divulgar este testemunho, fruto palpável da reflexão proposta pela IECLB. O Sr. Ivo Ritzmann, representante da Diretoria da Comunidade Evangélica Luterana de Joinville – UP (CEJ-UP) nos parabenizou pelo projeto. A presidenta da Paróquia São Mateus, sra. Sandra Meier, ressaltou a importância desta obra dentro do nosso contexto mundial. Havia brilho nos olhos da Comunidade reunida – sementes de esperança brotando...

Saímos da Igreja e fomos receber a bênção ao lado da referida “Estação Ecológica”. Dali fomos enviados aos nossos lares para celebrarmos a vida, nunca nos esquecendo do mandado de Deus: Somos “administradores” da Sua obra neste mundo; obra esta que carece de continuar sendo criada; cuidada; querida!... Que Deus nos abençoe!

17.9.11

Profeta Jeremias - um operário de Deus!


Ontem à noite, depois de assistir o Jornal na TV, fui visitar o Nestor. Para surpresa minha, ele estava assando um churrasco. Que cheirinho gostoso. Confesso que lutei muito com a água que brotava na minha boca. Foram bons os momentos de comunhão. Depois de tudo sentamos no sofá. Nosso diálogo foi excelente.

- Sabe pastor! O Brasil se prepara para a Copa do Mundo de 2014. Os Canteiros de Obras começam a se multiplicar em todo o país. Quanta transformação já estamos experimentando!

- Verdade Nestor! Crateras estão sendo cavadas. Pontes e viadutos estão sendo edificados. Terrenos estão sendo aplainados e aterrados. Árvores estão sendo cortadas e outras plantadas. Tem muita gente dando “duro” na construção civil. É que tudo precisa contribuir para a beleza da Festa que se aproxima.

- Ainda ontem eu estava conversando com a Édina. Faltam três anos para deixar tudo pronto. Até lá esse nosso povo vai precisar trabalhar arduamente, demolindo; escavando; quebrando; dinamitando; consertando; corrigindo; plantando...

Nossa conversa foi quebrada pela minha esposa, a Valmi, que apontou para o relógio. Já passava das 23h. Despedimo-nos e fomos para casa. Antes de deitar, ainda dediquei alguns minutos para refletir sobre o texto de Jeremias 1.1-5 onde se lê sobre um “construtor” muito jovem que foi “requerido” por Deus para “construir” uma “obra” que encaminhasse a um futuro melhor. Sim, essa conversa com o Nestor e sua esposa seria uma boa idéia para perseguir na elaboração do meu texto...

- Valmi! Podes vir aqui no meu gabinete um instantinho?

- Oi! O que é?

- Escuta isso: Jeremias recebeu o “mandado de Deus” para arrancar o egoísmo do coração humano; para derrubar os muros de hostilidade que separam as nações; para destruir a injustiça e a corrupção dos governantes da sua época; para acabar com as diferenças existentes entre os ricos e os pobres; para construir a paz e justiça em seu país; para plantar o amor no coração das pessoas.

- Marido! Com certeza isso não foi tarefa fácil pra ele.

- Não foi não! O Jeremias fez fez de tudo para cair fora do tal “projeto”. Argumentou que era muito jovem para esse trabalho; que não era bom de discurso e que, por isso, minguém o levaria a sério. Que queria mesmo era ficar de fora, só assistindo...

- E Deus aceitou seu desejo?

- Claro que não Valmi! Deus lhe disse: - Jeremias, tu tens capacidade para fazê-lo. Vamos! Te “reveste” de coragem e assume esta tarefa porque Eu vou te ajudar!

- Interessante!... Lamento Renato. Estou cansada e não posso te ajudar no momento. Vou me deixar surpreender pela tua prédica no domingo. Já vi que estás bem aceso. Eu vou dormir. Boa noite...

A Valmi sumiu pela porta. Já eu me deixei levar pela reflexão. Jeremias ouviu a Palavra de Deus e reagiu. Começou a trabalhar com paixão. Por um lado, lamentou a injustiça que grassava em seu país, mas, por outro, lutou contra a opressão que o governo fazia sobre o seu povo; denunciou a falta de compromisso com Deus e, junto, consolou a sua gente. Sim, Jeremias entendeu que Deus não o deixaria só; que Deus iria fazer acontecer um “novo tempo”; que Deus iria mudar toda aquela conjuntura e que isso seria para já!

Acomodei-me na minha cadeira giratória e soltei meus pensamentos. Mudar o mundo... Que “projeto de vida” esse do Jeremias. Não, isso não foi uma tarefa fácil como bem tinha sugerido a Valmi. As verdades que ele precisava dizer nunca eram bem aceitas pelos que as ouviam. O que Jeremias tinha a dizer machucava os ouvidos de muitos conterrâneos que se sentiam ofendidos; desinstalados até com aqueles verbos. Vai daí que suas palavras duras faziam com que os “tocados” reagissem com ridicularizações; com gozações e até com peseguições. O fato é que Jeremias não arredou o pé. Continuou a sua “obra” movido pela “força” oriunda da sua crença. Em algum momento haveria de acontecer um mundo melhor para se viver - pensava.

Foi nesse instante que a Irma entrou no MSN....

- Oi Renato! Ainda acordado?

- Sim Irma! Trabalhando o texto que vou apresentar por ocasião do nosso encontro da Missão entre Universitários amanhã à noite. Vou falar sobre Jeremias, o moço que Deus separou desde o ventre de sua mãe para um “servicinho” especial...

- Legal! Não quero te atrapalhar...

- Atrapalha não querida Irma! Estou vendo aqui no meu estudo que o nosso mundo precisa ser melhorado, tal como o mundo dos tempos do profeta foi. Como ontem, também hoje estamos carecendo de profetas; de pessoas que se coloquem à disposição para, juntas, construírem um futuro melhor para nós.

- O que é que um profeta dos tempos modernos tem a fazer; quem seriam estes profetas de hoje Renato?

- Olha Irma! Creio que hoje, um profeta tem a tarefa de acabar com os preconceitos existentes. Ele poderia, por exemplo, ser o menino que convida o seu vizinho mais pobre para brincar. Creio que hoje, um profeta tem a tarefa de destruir o ódio. Ele poderia, por exemplo, ser aquele que escreve um cartão de aniversário para a parente que, depois da briga pela herança, jurou não trocar mais uma palavra que seja com os da sua família. Creio que hoje, um profeta tem a tarefa de construir pontes. Ele poderia, por exemplo, convidar o vizinho que recém chegou de mudança para uma xicara de chá ou de café. Creio que hoje, um profeta tem a terefa de plantar amor. Ele poderia, por exemplo, ser um pai que doa tempo e leva seus filhos a sério. Que tal?

- Entendi pastor! Então um profeta moderno se assemelha a um profeta da antiguidade?

- Na mosca Irma! Construir e destruir; edificar e derrubar; depois plantar, sempre com vistas num caminho que visa futuro melhor – essa é a tarefa a ser desincumbida também pelos profetas de hoje. Hoje, tal como antigamente, esta tarefa continua sendo árdua. Aqui e ali, de repente, tu e eu poderemos ser acusados de tolos – se nos engajarmos.

- Eu não tenho tanta experiência como tu, mas percebo que há pessoas que ainda continuam a se doar na construção deste “bom caminho”. Elas fazem isso porque acreditam num mundo melhor, não apenas na vida após a morte, mas num “espaço mais integral”, já aqui e agora na terra.

- É isso que me anima Irma. Hoje, tal como antigamente, cada um de nós pode vir a ser um profeta; uma profetisa. A idade e a educação não importam. O que importa é se ser senhor de uma grande porcentagem de confiança em Deus e, junto, de um forte desejo de se querer mudar alguma coisa neste mundo...

- Veja só! Então não só o mundo da Bíblia careceu de profetas. O mundo onde vivemos também carece. Joinville carece. A Paróquia São Mateus carece de gente chamada por Deus que pense, que fale, que diga, que aja e que se doe para cumprir o chamado de Deus de continuar transformando os Seus projetos de paz; amor e perdão.

- Isssssso Irmaaaaa! Eis nossa tarefa: Acreditar num mundo melhor e, com nossas próprias mãos, movidas pela nossa clara reflexão,começar a construir uma estrada que leve até lá.

13.9.11

Reforma Luterana!


Outro dia ouvi a avó do Nando berrando na vizinhança: - Cuidado menino! Desse jeito você não vai pro céu! E o menino retrucou gritando: - Ah vó! Eu nem sei se quero ir para o céu!

Confesso que fiquei com vontade de interferir naquela conversa. Pessoas como o Nando não podem ser ajudadas. Sem Deus poderemos chegar onde quisermos, mas, “no final desse caminho sempre haverá uma pedra”! Se Martim Lutero tivesse ouvido a resposta que o Nando deu para sua avó, ele, certamente, retrucaria: “Nando! Deus te quer no céu! Busca uma resposta que te encaminhe para lá!”

Martim Lutero sempre se esforçou para responder a pergunta: Como se faz para chegar ao céu? Sim, ele ocupou grande parte do seu tempo como monge para alcançar a certeza desta resposta. Sabe-se que como professor de Teologia ele gastou horas e horas de oração; de reflexão e de pesquisa na Bíblia para dominar esta questão. A História testemunha que quando ele se tornou padre, assessorou-se da Comunidade para dirimir sua dúvida: Como é que nós, pecadores, conseguiremos nos confrontar com esse Deus justo, do qual tanto se fala na Bíblia?

Deveria haver uma resposta clara para tal pergunta! Um dia, assim, de repente, lhe veio uma luz: “Ele só teria acesso ao Reino de Deus a partir da sua fé”. (Romanos 1.17: Pois o evangelho nos mostra como é que Deus nos aceita: é por meio da fé do começo ao fim. Como dizem as Escrituras Sagradas:”Viverá aquele que, por meio da fé, é aceito por Deus.”)

O resultado de toda esta luta em prol de uma resposta satisfatória redundou nas conhecidas “95 Teses” escritas pelo nosso Reformador. Nelas se lia uma “resposta” à pergunta de “como se chega ao céu”.

O Papa não gostou nada daquilo que Lutero escreveu naquelas Teses. O Imperador e grande parte das Autoridades Políticas da época fizeram coro com o Chefe Máximo da Igreja de então e, com grande estardalhaço, expressaram sua discordância com aquele conteúdo pregado na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg.

Fazer o quê? Para Lutero aquela resposta encontrada na bíblia era mais importante que o Papa; que o Rei e que tudo o mais.

No começo Martim Lutero até pensava que deveria fazer boas obras para alcançar o céu; entendia que precisava se esforçar para ser notado por Deus e, como consequência, ganhar o “bilhete” que lhe dava acesso ao céu. Também hoje muita gente ainda pensa assim: “Vou ao céu se me comportar bem aqui neste mundo.” Martim Lutero desaprovava esse comportamento. Para ele, nunca ninguém saberá se os seus esforços são ou serão suficientes para alcançar a bênção de Deus e a salvação eterna.

Impressionante! Ninguém pode fazer nada para conseguir o céu! Deus, a partir de Jesus Cristo, fez tudo o que precisava ser feito para que se alcance o Reino de Deus. A pessoa que coloca a sua vida no colo de Deus acaba herdando essa possibilidade gratuitamente!

Essa compreensão mudou a vida de Lutero por completo. Lutero tornou-se uma nova pessoa. Ele entendeu que sua vida não dependia dos próprios esforços; do tempo que gastava com orações e estudos bíblicos. Lutero percebeu que somente a sua fé em Jesus Cristo é que lhe abria as portas do céu; que Deus lhe acenava com o perdão para tudo o que tinha feito de errado.

Sim, penso que a vida do Nando vai mudar se ele vier a crer nesta verdade. Martim Lutero entendeu que o caminho até Deus não pode ser construído com força própria; não pode ser herdado por merecimento; não vem da Igreja. Depois que ele reconheceu essa máxima, deu de si no sentido de que todas as pessoas encontrassem o caminho que leva ao céu: traduziu a Bíblia para uma linguagem compreensível; não permitiu que os poderosos da época o assustassem; escreveu livros e pregou sobre a fé; sobre o presente do perdão de Deus através da morte e da ressurreição de Jesus Cristo.

O céu está aberto para a avó do Nando; para o Nando e também para nós. É Deus quem nos convida a entrarmos nele. Deus não nos força a fazermos isso. Cada um tem a liberdade de acreditar no que quiser. Todos podem viver como bem entenderem. No entanto, se quisermos chegar perto de Deus, deveremos arriscar nossa confiança em Jesus Cristo; pendurarmos nosso coração Nele; permitirmos que Ele renove a nossa vida por completo.

- Nandooo! Eu se fosse tu, ia querer o céu!

7.9.11

Pontifex maximus!


Era segunda-feira, meu dia de folga e eu estava só. O céu estava azul; o sol se mostrava quente e sombra agradabilíssima, debaixo do laranjal. Foi ali que estiquei a rede. Devo ter cochilado uns trinta minutos. Quando abri meus olhos, vi a natureza e me parei a pensar...

Deus me chamou para construir “pontes” que aproximam pessoas; que oportunizam diálogos; que ligam idéias... Como me desincumbir desta tarefa? Relaxando meus cercados; reconhecendo tesouros outros; abdicando de “reinventar a roda” – por exemplo.

Pontes” oportunizam a passagem sobre depressões e fronteiras; oportunizam contatos onde nunca houve possibilidade de diálogo. Elas podem ser de madeira; de pedra e ou de aço. Quem passa por elas sente novidade. “Pontes” sempre são mais simpáticas do que “muros”.

A abelha suga o néctar da flor branquinha. As folhas verdes brincam com as réstias dos raios da luz solar. São lindos os pés que encaminham ao outro. São lindos os braços que se abrem aos abraços. São lindas as mãos que se apertam. São lindos os olhos que se encontram. São lindos os ouvidos atentos às vozes alheias. São lindas as bocas que esboçam sorrisos abertos. São lindas as palavras providas de bons tons. Tudo são encontros; “redes” de interesse promotoras da implosão das possibilidades de “ensimesmamento”.

Incluir – não dividir. Não seria essa uma boa idéia? A Bíblia sugere a construção de “mil pontes” quando Jacó e Esaú se dão as mãos; quando Deus faz acontecer o arco-íris; quando o pai abre os braços para receber o filho perdido; quando Jesus reata a nossa comunhão com Deus.

Em 1 Timóteo 2.5 onde se lê: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem.” Jesus Cristo foi um “Mediador”. Jesus Cristo edificou a “ponte”. Jesus Cristo “mediou” a possibilidade da aproximação das pessoas de Deus, a partir da Sua “ação” no mundo. Jesus Cristo foi e continua sendo o maior “Construtor de Pontes” que o mundo conheceu. Em latim se diria que Jesus Cristo foi o “Pontifex maximus”.

Sento-me na rede. Meus pés balançam. O sabiá canta. A brisa é fresca e eu piso no chão. Quero continuar este processo. Volto para a minha casa. Também sou um “pontífice”.

OLHA SÓ!

  A BAILARINA DE AUSCHWITZ Outro dia, após repartir algumas dificuldades com uma amiga, fui desafiado a ler o livro “A Bailarina de Auschwit...