23.9.11

Não diga não! (Jeremias 1.5a)


O trânsito fluía lento. Os motoristas se mostravam inquietos. No meio do caos eu ouvia música. Já em casa, sentei-me no sofá para relaxar. No que eu estiquei as pernas, não deu outra: tocou o telefone...

- Alô!
- Oi pastor! É a Êlla. O senhor pode falar?
- Claro Êlla! Fale!
- O nosso pessoal quer conversar com o senhor.
- Qual é o assunto?
- É sobre o “chamado” que Deus faz para uns e outros. O senhor está lembrado do Arthur?
- Sim, aquele moço lá da zona sul da cidade.
- Isso! Ele compartilhou conosco que “ouviu” o “chamado de Deus” para “evangelizar no Morro Santa Vitória”! Temos muitas dúvidas sobre esse tema e precisamos da sua ajuda.
- Êlla! Avise o pessoal que a gente se encontra no sábado. Pede que leiam os dois primeiros capítulos do livro de Jeremias...
- Valeu pastor! O nosso encontro será às 20h. Legal que o senhor pode vir. Abraços!
- Tchau Êlla!

Sentei-me... Pensei no Arthur, no moço tímido da família Schweitzer. Lembrei-me então que o jovem Jeremias se entendia incapaz; inexperiente para desenvolver a “tarefa” que Deus lhe sugeria. Sim, Jeremias não se via como um bom orador para assumir tal “função”. Já o Arthur sim. Será que sim!? Será que não!?

Inquietei-me. Levantei do sofá e fui hibernar no gabinete. Sempre carreguei o sentimento de que não me cabe articular qualquer “plano” particular e, então, simplesmente partir para ação, como se Deus, somente Deus, tivesse sido o Sujeito da tal idéia. Folheei a Bíblia durante algum tempo. Paulo sugeriu aos cristãos de sua época que “Deus já nos escolhe no ventre da nossa mãe” para determinada tarefa (Gálatas 1.15-16). Essa informação sublinhava o conteúdo bíblico que eu iria trabalhar com a turma dos jovens. Deus já tinha escolhido Jeremias para engrandecer a Sua obra e isso, antes Dele ter nascido. Deus iria desenvolver Sua Proposta de Vida na pessoa de Jeremias, mesmo que ele se sentisse “incompetente”.

E quanto ao jovem Arthur? Ele tinha tido a “visão” de subir o morro Santa Vitória para “evangelizar”. O que será que ele entendia por “evangelização”? Meus olhos pousaram novamente no texto bíblico. Quando Deus dá uma “ordem” para alguém, esta “ordem” sempre se faz acompanhar de uma “promessa” (Jeremias 1.7-8). O jovem Jeremias poderia contar com a presença; com a proximidade de Deus, acontecesse o que acontecesse. Será que o Arthur desfrutava de tal “segurança”? Como o Arthur resolveria o problema da timidez no contato com as pessoas? Deus assessorou Jeremias (Jeremias 1.9). Será que o Arthur também seria assessorado?

Anoiteceu. Sentei novamente no sofá. Reli os 52 capítulos do livro de Jeremias. Sim, Deus escolheu o homem certo. Ele, durante 50 anos, falou com segurança, sempre alicerçado numa profunda reflexão. Isso, no entanto, lhe pesou sobre os ombros. Por quê? Ora, ele precisava “dizer” a vontade de Deus com extrema clareza às pessoas de sua época. Os historiadores são unânimes: O povo ao qual Jeremias foi enviado era extremamente “duro” de tratar. Aquela gente não gostava de ouvir as verdades nuas e cruas que brotavam da boca do “escolhido” de Deus. Elas faziam pressão constante contra Jeremias que, por causa disso, sempre corria risco de morte. E não era só isso que pesava sobre os ombros do profeta. Deus também o tinha incumbido de escrever suas experiências para que as gerações vindouras pudessem usufruir de bons aprendizados.

O relógio do sino da Igreja bateu 11 vezes. Era tarde da noite. Comecei a examinar meu “coração”. Também sou profeta. Claro que não sofro as agruras que Jeremias sofreu. Os tempos são outros. Mesmo assim, muitos não me entendem. Apesar do meu esforço. Aqui e ali ouço críticas que exercem pressão sobre mim. Coisa boa poder se apoiar na palavra de Deus: - Eu sou contigo! (Jeremias 1.8). Fui deitar. Demorei a dormir. Será que o Arthur tinha consciência do que lhe esperava?

Amanheceu. Malhei. Tomei café e dei andamento ao dia-a-dia da minha Paróquia. Lá pelas onze horas da manhã, escrevi um e-mail para a Êlla...

Oi Êlla! Nossa reunião não me sai da cabeça. Penso muito no “chamado” de Deus que o Arthur diz ter recebido. Hoje, poucas pessoas se engajam nas propostas de “agrandamento” do Reino de Deus. Uns se dizem muito jovens; outros muito velhos; terceiros dizem que lhes falta dinheiro; quartos afirmam dificuldades com a voz e assim por diante. Sabe Êlla! Creio que onde existe amor a Deus, ali também está a solução dos “probleminhas”. Carrego a impressão que parece ser este o sentimento que permeia a vida do Arthur. Concordas comigo?

A resposta da Êlla veio em 15minutos: - Oi pastor! Li com muita atenção os dois primeiros capítulos do livro que o senhor sugeriu. Parece que a “evangelização” não depende muito de se falar com eloquência ou não – isso Deus resolve. Ele sabe exatamente o que conseguimos fazer bem. Ele, com o tempo, mostra como melhor fazê-lo. Que tal? Evangelizar, missionar e diaconar – tudo tem a ver com o engrandecimento do Reino de Deus. Será que a gente não poderia se colocar ao lado do Arthur e, assim, juntos, assumirmos a “construção” de alguma “idéia cristã” geradora de mais vida no Morro Santa Vitória? Pensei em fazer esta proposta ao grupo hoje à noite. Como o senhor vê isso?

A noite prometia. A turma foi se chegando um pouco antes das 20h. Sentamo-nos em roda no salão do sótão. Coisa boa trabalhar com jovens que não resumem suas atividades apenas em festas e brincadeiras. Oramos e, de repente, a palavra estava comigo... Em Jeremias 2.13 se lê: “O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água.”

Vivemos momentos complicados. De modo geral a sociedade se enclausura; se encastela, desenvolve uma espécie de “ensimesmamento” pessoal; familiar e comunitário. Poucos fomentam “sinais de vida” no meio dos “sinais de morte”. Poucos buscam a Palavra de Deus para dar sentido à sua vida. A maioria prefere “alimentar-se” de informações que nada tem a ver com as propostas de Deus. Ora, podemos interferir. Martim Lutero disse que “a fé é a luz que ilumina quando o entendimento perde sua visão”. Proponho debatermos esse conteúdo que reparti. E então?... Arthur!... Levantaste a mão. Queres te manifestar?

- Pastor! Tenho assistido suas pregações. Também tenho lido seu blog. O senhor sempre desafia quem o lê a “escrever a história, não apenas sofrê-la”. Sou formado em Educação Física e nos últimos dias me senti chamado por Deus a fazer diferença no Morro Santa Vitória. O que o senhor me diz disso?

- Arthur! Então você quer repartir os seus dons e talentos no Morro, junto ao povo empobrecido!
- Isso mesmo Pastor. Eu já tinha repartido esta idéia com o grupo. A Êlla e eu conversamos muito.
- É pastor. Na realidade o Arthur não só conversa comigo, mas com todo o pessoal.

O Júlio não se conteve e puxou palmas para a Êlla e para o Arthur. A algazarra foi geral. Todos já desconfiavam que aquela relação já se mostrava mais como namoro. Participei da brincadeira e, logo depois, re-encaminhei o diálogo.

- Pessoal! O profeta Jeremias foi um típico jovem da classe média dos nossos dias. Se vivesse numa grande cidade, certamente estaria estudando numa das nossas Universidades. Sua rotina era igual a de qualquer jovem da nossa turma. Tudo corria normal até o dia em que Deus o “atingiu”. A partir desse momento ele começou a viver uma “revolução interior” que logo “explodiu” exteriormente.

A Êlla queria se manifestar e oportunizei-lhe a palavra:

- Entendo que quando alguém está a serviço de Deus, está a serviço e ponto. Não há como fazer diferente. Todos os caminhos conduzem ao determinado objetivo que Deus apontou para ser buscado. Os impedimentos acabarão sendo todos transpostos. Pessoas tocadas pelos dedos de Deus, não podem ser caladas. Quando, por um ou outro motivo, são amordaçadas, acabam morrendo de tristeza e insatisfação.

- Certo Êlla!

O Arthur e a Êlla entenderam a Palavra de Deus. Não sou mais seu pastor. Sei que seu trabalho vai “de vento em popa”. Mais de cinquenta pessoas voluntárias atuam no projeto que articulam (advogados; professoras; médicos; engenheiros; enfermeiras...).

Ora, Deus “plantou” Suas palavras na boca de Jeremias; “plantou” Sua força no corpo do profeta. Ele também “sonha” plantar Suas Palavras e Sua força nas nossas vidas. Que pena! Falamos demais de Deus; demais da nossa fé; demais nos Cultos. Agimos dessa forma porque ela é forma comum. Sobre o significado dessas falas, pouco nos preocupamos. Jeremias nunca mais calou sua boca, depois de experimentar o poder de Deus em sua vida. Trabalhou empenhando sua juventude e sua terceira idade num projeto de amor que visava a “vida integral” do seu povo. Dedicou sua vida em prol da luta pela experimentação da felicidade coletiva do mesmo. Negou-se a pregar um Deus com sotaque individualista. Para tal, contextualizou-se dentro do mundo, entre os que não queriam que Deus fosse Deus. Experimentou sofrimento, mas venceu. Lutou pela justiça, pela paz e pela integridade da criação. Circulou pela cidade sofrendo seus problemas na carne. Buscou soluções para as dificuldades vividas pelas gentes, sem se esquecer de enfatizar a conversão dos maus caminhos. Jeremias venceu.

Cadê você? A gente se vê, a gente se fala...