25.10.11

A Manipulação de Pessoas!


Estávamos comendo uma porçãozinha de camarão ao bafo no bar do Arante: o Ariovaldo; o Genivaldo e eu. A conversa corria solta. Tempos bons aqueles da nossa Santa Cruz do Sul dos anos 70. Quarenta anos tinham se esvaído em dias e agora estávamos ali, “ministros eclesiásticos”. Papo vai, papo vem, desembocamos no tema “manipulação de pessoas”. Saí dizendo que sim, que era possível “manipular-se” pessoas. Que desconfiava serem muitos os líderes eclesiásticos que articulavam esta “arte”. Deixei-lhes claro minhas dúvidas sobre o assunto quando perguntei:

- Será que a “manipulação” faz bem para quem a “sofre”?

O Ariovaldo logo se fez senhor do assunto se dizendo “manipulador”, mas com emendas: sempre tinha muito cuidado ao “manipular” indivíduos.

Fiquei estupefato. Reagi observando que quem “manipula pessoas” também tem ascendência sobre estas mesmas; que pode “usar” estas “pessoas manipuladas” ao seu bel prazer; que “usando-as”, também se lhes estaria roubando o “livre arbítrio”.

- Calma Renato! – disse o Genivaldo que carinhosamente chamávamos de Gê. Não há necessidade de “manipularem-se pessoas” se estas já fazem aquilo que esperamos que elas façam. Aliás – continuou ele – é interessante notar que a maioria das “pessoas manipuladas” nem se apercebem que estão sendo “usadas”.

Confesso que não conseguia entender direito o rumo da nossa conversa. Meus dois colegas pareciam incrivelmente familiarizados com aquela temática. Mesmo assim argumentei:

- Pô Genivaldo! Uma pessoa sempre fica agressiva logo depois de perceber que está sendo “manipulada”. Só essa constatação já me faz pensar que isso não é bom. O Ariovaldo não se conteve e abriu seu “discurso” como se abre um “jogo de cartas”:

- Isso é verdade. No momento em que uma pessoa descobre que está sendo “manipulada” ela acaba expressando muita raiva, mas isso é administrável...

- Ô Ariovaldo. A raiva é compreensível, visto que toda forma de “domínio” sempre está “fantasiada” de ataque. É óbvia a necessidade do “sopro” de ventos de resistência.

- Sim, Renato! Sei disso, mas note que eu sempre exerço a “manipulação” sobre pessoas que se mostram mais inseguras. É assim que as pessoas mais fortes; mais auto-confiantes; mais seguras de si e em paz consigo mesmas não são tão suscetíveis à “manipulação” que exerço. Isto não quer dizer que não seja possível “manipulá-las”. Para “manipular-se” estas ditas cujas mais “estabilizadas”, há que se ser mais “esperto” e isso, amigão, eu sou. Vocês já devem ter notado. Cada indivíduo carrega pelo menos uma, duas, três ou mais fraquezas em si. Uma destas tais já são suficientes para servirem de “trampolim” no sentido de se encaminhar uma “boa manipulação”.

O Genivaldo não se conteve. Serviu-se de mais dois camarões. Arrematou o momento com um gole de cerveja e se saiu assim:

- Claro que é preciso cuidado ao “manipular-se” pessoas. Entretanto, formas extremas de “manipulação” são como que “parentes” da chantagem. É por isso que esse assunto da “manipulação” precisa ser tratado com cuidado. Cá pra mim tenho uma técnica muito simples de “manipular” indivíduos. Sempre só “manipulo” quem está em “pé de igualdade” comigo na família; no trabalho e ou até nas relações de profunda amizade. Vocês estão “carecas de saber” que os pais estão acima dos filhos; que os patrões estão acima dos seus empregados; que os irmãos mais velhos estão acima dos mais novos e que o “ministro eclesiástico” está, quase sempre, acima dos membros da sua Comunidade... Ora, nestas circunstâncias é fácil exercer-se “manipulação”.

Nesta hora eu pensei em pedir a conta. Sair dali daquele lugar. Deixar meus amigos a sós. Aquilo não podia ser verdade, mas o problema é que era. Mas daí então eu resolvi ficar mais um pouco, enquanto o Ariovaldo falava de suas experiências como “manipulador”:

- Tenho para mim que quem quiser ousar “manipular”, faça-o com pessoas que sejam iguais. Eu só “manipulo” quem esteja no meu nível ou abaixo de mim.

- Me explica melhor isso Ari... (Meus colegas perceberam o espanto retratado nos meus olhos e pareciam se divertir comigo. Mesmo assim continuaram extremamente abertos.)

- Para que uma pessoa faça exatamente o que você espera, diga-lhe o que fazer de forma tão clara que ela não tenha outra saída senão fazer aquilo que você lhe sugeriu. Parece difícil, mas não é. Exemplifico: - Fulano! O que eu gosto em você é a sua honestidade. Quando se diz uma tal palavra para alguém, nesse alguém desperta a necessidade de se comportar do jeito sugerido. A pessoa que acabou de ouvir que nós a “vemos” como “honesta”, se vê “honesta” e, ato contínuo, passa a valorizar esse “juízo de valor”. A partir de então ela vai se esforçar, com “unhas e dentes”, para ser “honesta”; ela fará de tudo, aplicará todas as suas energias no sentido de se tornar uma pessoa cada vez mais “honesta”. Concorda comigo Gê?

- Claro que sim! A primeira coisa a se fazer é descobrir aquilo que você gostaria de “ver” na pessoa que você vai “manipular”. Depois, formular-lhe com muito jeito a “sua convicção”. Deve-se escolher o momento certo para fazê-lo (kairós). A pessoa a ser “manipulada” precisa perceber que você não está caçoando dela, mas que você está falando sério; que você está verdadeiramente interessado nela. Diga-lhe o que precisar ser dito e faça-o com muita convicção. Os resultados virão em seguida.

Os colegas não paravam de “martelar” sobre os seus “sucessos”.

- Sabe Renato, o Genivaldo está certo. Eu até vou mais longe. Também é possível “manipular-se pessoas” fazendo uso da Psicologia Reversa. Quem usa este método não pode logo dizer ao “futuro manipulado” aquilo que “gosta nele”. Há quem defenda a tese que, ao “manipularmos” com base na Psicologia Reversa, devamos expressar o contrário daquilo que verdadeiramente queremos que seja feito; que a pessoa em “manipulação” quererá resistir e não fazer o que estamos pedindo, mas exatamente aquilo que esperamos que ela fizesse, a partir do nosso “desejo escondido”. A primeira vista isso parece lógico, mas não é. Quase sempre é assim que uma “pessoa resistente” até nem queira resistir a uma determinada idéia que esteja sendo posta. Ela quer ir contra, isso sim, à pessoa que colocou a tal idéia “sobre a mesa”. Em casos como estes de nada adianta a Psicologia Reversa. Se uma pessoa não quer fazer aquilo que esperamos dela, aí temos que partir para a “manipulação” propriamente dita.

- Boa Genivaldo! Tenho pra mim que a verdadeira Psicologia Reversa também pode ser descrita de forma diferenciada: Organiza-se uma situação onde a pessoa a ser “manipulada” não tenha outra saída senão fazer exatamente aquilo que se espera dela. Esse método se parece muito com o que já repartimos há pouco. O fato é que a “manipulação” funciona apenas em determinadas circunstâncias. Vou dar outro exemplo para explicar isso que acabei de afirmar. Prestem atenção na ordem que vou proferir: - Atenção! A partir de agora está terminantemente proibido pensar-se em ursos polares. No que é que vocês dois estão pensando? Isso mesmo! Vocês acabaram de se tornar vítimas do sucesso da aplicação da Psicologia Reversa. O princípio é simples. Provoquem um momento em que a pessoa não tenha outra saída senão pensar exatamente naquilo que você deseja que ela pense. Façam isso a partir de “ferramentas”, tais como frases do exemplo de há pouco; pela “impostação da voz” para sublinhar esta ou aquela idéia. Podem crer, sempre dá certo!

- Que coisa! Nunca imaginei isso que vocês acabaram de repartir, assim, com tanta transparência. Isso não seria “auto sujestão”?

O Ariovaldo mal podia esperar a hora de começar a repartir seus pontos de vista sobre este novo assunto:

- Gente, a “auto-sugestão” é uma área muito complexa da Psicologia, mas cá entre nós, quem é que se preocupa com “complexidade”. Tiramos a essência desse saber e usamos esta “ferramenta” de uma forma prática, quando ela nos for útil e acabou a história. Fala-se de “auto-sugestão” quando se induz a própria pessoa a manipular-se. Além da “auto-sugestão” também há a “hetero-sugestão”. Um bom exemplo para “hetero-sugestão” é o “efeito placebo”. Prescreve-se medicamentos para que uma pessoa os ingira e, consequentemente, cure sua doença. A pessoa crê na eficácia e no “poder” desse remédio e, de fato, a cura acontece algum tempo depois. Quer dizer, se induz um tipo de “manipulação” que vem “de fora”; uma “manipulação” que promove o fim desejado: a cura. Concorda Genivaldo?

- Óbvio que sim! Já um exemplo bem conhecido de “auto-sugestão” é a tal profecia que se “auto-realiza”. Há pessoas que temem passar por alguma situação futura. Passa o tempo e elas acabam acontecendo tal e qual foram previstas. A pessoa mesma “cria” os “ingredientes” para que a “profecia” se cumpra. Ela mesma faz a “profecia” acontecer. Isto geralmente acontece assim porque, inconscientemente, as pessoas acabam “fomentando” a realização do próprio temor. Ou seja, as próprias pessoas se “auto-manipulam” de forma involuntária, para chegar ao ponto previsto pela tal profecia que tanto temiam que se concretizasse.

Nesse momento tocou meu telefone celular. Era a Valmi. Tinha chegado visita na José Boiteux. Despedi-me e fui para casa. Não vi o tráfego e nem tampouco se o sinal era verde ou vermelho. Foram vinte quilômetros “embebidos” de “pensamentos estranhos”. Pastores, colegas meus, formados pela mesma Faculdade de Teologia “manipulavam pessoas” das suas Comunidades.

Num dado momento da pequena viagem me lembrei do texto de Mateus 16.17-19 onde se lê: “Jesus afirmou: - Simão, filho de João, você é feliz porque esta verdade não foi revelada a você por nenhum ser humano, mas veio diretamente do meu Pai, que está no céu. Portanto, eu lhe digo: você é Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e nem a morte poderá vencê-la. Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu; o que você proibir na terra será proibido no céu, e o que permitir na terra será permitido no céu.”

Estaria Jesus “manipulando” Pedro? Será que os “presbitérios comunitários” também não desenvolviam esta prática? E quanto às lideranças gerais da Igreja. Sim, eu tinha que continuar pensando naquele assunto...