26.7.13

Minha Morte!

Dormi ao volante. A batida foi forte. O motor saltou de dentro da estrutura do carro e eu fiquei ali, imóvel. Imediatamente após o acidente, alguém chegou perto e fechou meus olhos com dedos ásperos. Tentei abri-los, mas não consegui dominar os músculos das pálpebras. As pessoas ao redor de mim ficaram nervosas ao segurar meu pulso. Elas não sabiam o que fazer diante da morte. Umas delas logo se afastaram do meu corpo. Já outras poucas ousaram aproximar-se. Senti certo prezar mórbido na sua respiração. Não, ninguém conhecia aquele gaúcho da classe de 54. Alguém colocou a mão no meu bolso e, discretamente, passou a mão na minha carteira. No outro bolso estava meu celular. Um motoqueiro vasculhou meus endereços nele. Falavam baixinho. Num dado momento uma senhora discou o número 101 com discrição. Logo depois soaram as sirenes do Corpo de Bombeiros. Viajei numa carroceria fechada, dentro de um recipiente de latão, até uma sala lúgubre. Ali me despiram e, logo depois, me deram um banho com a água gelada que brotava de um esguicho metálico. Os funcionários agiam profissionalmente, mas mesmo assim se sentiam incômodos com minha presença inerte. Era por isso que faziam piadinhas a meu respeito. Outro dia li que este pessoal que trabalha com mortos precisa de acompanhamento psicológico de quando em quando. Tratava-se de uma “catar-se”. Encheram minha boca e minhas narinas com uma espécie de cimento branco. Colaram meus lábios com fita adesiva para que se endurecessem fechados. Vestiram-me com o terno que, um dia, eu comprei para a Festa de Casamento da Ella. Estava difícil de vesti-lo em mim, por isso rasgaram-no nas costas. Deitaram-me dentro do caixão e ajeitaram minhas mãos, ainda amolecidas, como se eu estivesse orando. Colocaram-me dentro de um automóvel branco. Rodei durante trinta minutos dentro daquela caixa, até que me descarregaram num necrotério. O cheiro de flor e cera queimada das velas me incomodava um pouco. Minha esposa, companheira de mais de 40 anos, e meus filhos choravam ao meu lado. Um dos meus garotos se mostrava calado, talvez lembrando que ainda poderia ter me dito isto ou aquilo. O outro, em alguns momentos, chorava choro solto, talvez se lembrando de que tinha tentado dizer tudo o que podia. Uma das minhas noras se apresentava extremamente séria, já a outra sempre tinha os olhos marejados. Amigas e amigos vinham dar abraços, disfarçando sua tristeza atrás de óculos escuros. Um pouco mais longe, eu ouvia o burburinho. Gente lembrando-se do meu passado, mas também não querendo lembrar. Eu sentia o cansaço nas pessoas que me ladeavam. Havia muito movimento. No fundo, mas bem no fundo, esse povo esperava que aquele momento chegasse ao fim. Algumas e alguns passaram a mão na minha testa, sem se perguntar se eu desejava aquele gesto. Havia muitas pessoas em pé no pequeno recinto. A conversa aumentava de volume. De repente, depois de muito tempo, o povo que se despedia de mim se aquietou com a chegada do Pastor da Comunidade na qual eu, aposentado, participava. Ele se fez acompanhar do Pastor Sinodal que ainda ajudei a eleger. Os dois se apresentaram debaixo de seus talares pretos. Sob os meus pés a minha família colocou o talar que, sempre ainda em uso, um dia, em 1977, me foi presenteado por um grupo de amigas e amigos. Do lado dele, combinando com o preto, estava a bandeira do Grêmio com suas três estrelas amarelas. Sim, o meu Pastor se preparara para aquele momento – senti isso. Não quis dizer bobagem e, por isso, fez pesquisa no meu Blog; no Facebook; nos arquivos da “empresa” (IECLB) em que trabalho. Ali ele descobriu que já militei no Encontrão e no PT; que já fui Evangelista de Tempo Parcial nos anos 80 e 90; que dediquei quase todo meu pastorado em prol de jovens secundaristas e universitários; que já “pintei o sete” no sul do Brasil, nesta igreja oriunda de Lutero; que, no final do meu Ministério, me descobri feliz na Comunidade de Itoupava Central. Ouvi-o apontando para a perspectiva da ressurreição; consolando àquelas e aqueles que, de fato, já sentiam saudades. Nunca mais poderei saborear aquela cervejinha com o Sr. Adamastor; aquele café esperto com a Dona Regina. Ouvi a oração do Pai Nosso. Pela experiência eu sabia que tudo se encaminhava para o fim. O pessoal da funerária se aproximava discretamente. Eles queriam fechar a tampa da caixa fúnebre, pois tinham horários para cumprirem. Isso era preciso. Agora a saudade deveria ser trabalhada em quem ficava. O luto das pessoas presentes duraria mais ou menos um ano. Se passasse disso, precisariam buscar ajuda psicológica profissional. Senti o abafamento do tampão se fechando sobre mim. Agora apertavam os parafusos de rosca sem fim. Aprendi a apertá-los até meia volta antes de quebrar enquanto fui mecânico, no início da década de 70. Foi o meu avô Reinbold quem me ensinou isso. Gente querida agarrou nas seis alças. Agiam sérios, como se este ato fosse um último tributo que me prestavam. Iam quietos. Percebi que estava sendo pesado, mas mesmo assim carregavam-me com cuidado por entre os corredores estreitos, escorregadios e obtusos do cemitério. De repente senti um pequeno solavanco. Eram os caibros que apoiavam o caixão para que as velhas e secas cordas o abraçassem. Abaixo de mim estava a cova, toda forrada com pedra brita. Os responsáveis eram zelosos e, a pedido do Pastor, depositaram-me no espaço oco e seco. Senti-me mergulhando no ar. O Pastor leu o Salmo 23. Sim, ele se preparou bem para realizar o Ofício, mas sua voz demonstrava inquietude, uma vez que sabia da minha história; que queria poder dizer um pouco mais daquilo que sabia. Coisa boa que não falou “abobrinhas” neste momento de dor, para as minhas queridas e os meus queridos. Jogaram pétalas de flores sobre meu caixão. Daí então a colher do pedreiro passou a atritar com a areia e esse ruído me faz perceber que tampavam a sepultura. Tudo começava a ficar extremamente mais escuro. E agora? O que seria de mim? Não ouvia quase mais nada. Não sentia mais fome, sede e nem tampouco saudade. Eu que um dia escolhera minha profissão para nunca experimentar a sensação da solidão, de repente me sentia só; muito só. Ouvi ou pensei ter ouvido uma salva de palmas. Eu estava no “hades”, palavra hebraica que, traduzida para o Português significava “inferno” e que, na minha língua de teólogo não dizia outra coisa do que “debaixo da terra”. Não me desesperei. Sabia que Deus já vinha me acolher com Seu abraço quente e apertado; presentear-me com um corpo novo. Foi então que experimentei mais um milagre! O espaço exíguo onde me encontrava se “agrandou”, a escuridão ao redor de mim se converteu em luz. A alegria se fez presente naquele cubículo. Eu me levantei. Não havia mais muros entre mim e a vida. Percebi que tinha sido guindado ao Reino de Deus do qual eu, em vida, dizia “ainda não”. Senti vontade de cantar; jubilar. Vi, de relance, que não carregava mais a cicatriz oriunda do prego enferrujado que rasgou a parte interna da minha coxa direita, aos seis anos de idade, enquanto brincava só, lá embaixo, entre tábuas velhas onde, um dia, meu pai tinha matado uma jararacuçu. Minha diabetes Tipo 2 já era passado. Eu não precisava mais judiar meus rins com medicamentos. Assentei-me no assoalho macio de um ambiente enorme e isento de paredes. O ar ali era puro. Não havia necessidade de casaco. Sim, eu vivia numa nova terra, isenta de barulhos, de tristezas, de frio, de calor, de agonias... Não! Eu não sentia falta das coisas que me eram caras, nem do Jornal O Caminho. Experimentava comunhão com o Pai do qual era mais um dos filhos que retornava. Serviram-me um chimarrão montado com erva-mate sem sabão. Alguns tomavam cafezinho sem cafeína. Outros bebiam chá sem veneno. Quanta comunhão! Revi a Romilda, o Lauro, o Osmar, o Luiz, o Ari e tantas outras irmãs e irmãos das quais e dos quais sentia saudade. E os meus sentimentos foram se sucedendo, um mais bonito que o outro... 

Um comentário:

Aline Danielle disse...

Lindo texto, Renato. Me deparei com ele agora, meio que por acaso. Várias vezes já pensei a respeito da "minha morte". Compartilho muito do teu sentimento em relação a isso. Abraço!