19.6.10

Essas organistas!


Oficialmente estou pastor da IECLB há desde julho de 1982. De fato trabalho como ministro desta Igreja desde março de 1978. No passado era assim que, dependendo das circunstâncias, já se colocava o talar nos ombros depois dos primeiros dois semestres de estudo na Faculdade de Teologia. Lá se vão 32 anos de ministério; de prédicas; de visitas; de grupos; de articulações; de conversas; de planejamentos; etc.

Passei pelas cidades de Sapiranga, Porto Alegre e Cruz Alta no Rio Grande do Sul. Andei pelas cidades de Cianorte, Cidade Gaúcha, Umuarama, Paranavaí e Querência do Norte no Paraná. Na Alemanha vivi em Munique. Já em Santa Catarina fui pastor em Florianópolis e agora em Joinville. Quanta história pra contar. Hoje pela manhã acordei pensando nas minhas organistas.

A Arione era uma mulher estudada. Tinha faculdade de música e tocava muitíssimo bem. Conversava comigo sobre os hinos que tocava e sempre fazia um arranjo bonito para os hinos que eu escolhia. Lembro dos seus olhos tristes, resultado de tantas frustrações que a música amainava.

Já a Ilse era uma mulher solitária que passava horas e horas ensaiando. Às vezes eu a ouvia tocando. Ela parecia conversar com o órgão de tubos como se esse fosse um amigo maior. De repente ela estava ali, sem horários fixos a cumprir. Assim como chegava, ia embora.

A Noêmia era professora respeitadíssima na sociedade. Vivia num casarão, sempre guardada por cachorros fidelíssimos. Era extremamente conservadora e não gostava de novidades. Os tons que tirava do teclado nunca diferiam. Um dia abriu a porta para estranhos e foi assassinada. Perdi uma grande amiga.

A Hildegart sabia uns cinqüenta hinos, não mais do que isso. Era uma pessoa limitada que lutava com suas dores. Ao sentar no banco e colocar os pés na pedaleira sempre suspirava. Não tocava com alegria. As notas que brotavam do teclado eram preguiçosas e tristes. Um dia desses uma daquelas dores a levou embora.

A Hertha tocava muito mal. Sempre de novo as suas melodias desafinadas enchiam o templo de boa vontade. A Comunidade a respeitava na sua dificuldade, cantando junto, tentando acertar o tom a partir do gogó. Tempos interessantes aqueles.

O Otto era o mais bem formado de todos. Chegava uma hora antes e não ensaiava. Fazia verdadeiros concertos ao teclado. Na hora em que o Culto começava, ele estava aquecido. A Comunidade vibrava. Não tinha nada de amadorismo. Era um profissional. Seu jeito de ser marcou meu pastorado.

A Clarice tocava relativamente bem, mas gostava de aparecer. Sempre que podia precisava fazer um comentário sobre as músicas que fazia soar. Muitas vezes, para se auto-promover; outras tantas vezes para se auto-desculpar; quantas vezes para fechar os buracos de um sentimento de baixa auto-estima.

A Edla sempre parecia submissa. Não tinha nada a dizer e, uma vez sentada junto ao órgão, cumpria todos os compromissos com ar de serva. Sua discordância podia ser lida no brilho do olhar, mas nunca no bater dos lábios. Tocava e muitas vezes nem era percebida tocando. Uma pessoa extremamente discreta.

Sobrevivi; estou aqui, ainda alegre, sempre celebrando Cultos. Já dirigi mais de 2.000. Sou experiente. E creio, ainda serei mais, nos próximos 12 anos de Ministério. E viva a Igreja!

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