25.9.06

Sabores e Dissabores!

Nos últimos meses, tenho procurado fazer caminhadas diárias. Como não tenho problemas articulares nos quadris, pés e joelhos, dou tudo de mim num trecho de 9 km. Antes, durante e depois de caminhar dentro do Englischen Garten, bebo água. Coisa boa poder usufruir de um espaço assim, todo arborizado e não poluído para gastar energias. Sempre de novo fico pasmo quando percebo os riachos deixando transparcer os peixes que ali nadam. Vou em frente e me permito o sombreamento dos carvalhos que crescem a beira do caminho. Eles me ajudam a evitar os efeitos indesejáveis dos raios solares mais fortes. Sigo ao sabor do vento, sempre pisando em piso macio. Minha indumentária é leve e de cor clara. Vou com postura ereta, enquanto retraio meu abdome. E assim, meio que "sem lenço e sem documento", sigo meu rumo sempre mantendo os braços descontraídos e em movimentos rítmicos. Meu alvo é claro: quero aumentar o gasto calórico e a frequência cardíaca do meu corpo.

Tenho prazer neste tempo que dedico a mim. Ontem, durante o trajeto, observei o caule de uma das árvores crescidas, à beira do caminho que percorro. Lá, no tronco da mesma, estava inserida uma data a canivete: 27/06/67. Em junho daquele ano eu estudava em Porto Alegre, no Ginásio da Paz, no Bairro Navegantes. Eu morava em Esteio, de onde, diariamente, me locomovia à capital, sempre embarcados nos ônibus verde-escuros e lotadíssimos da Central. Desembarcava na esquina da Farrapos com a Sertório e ia a pé, ladeando o velho estádio do Renner, enquanto observava meus sapatos pintados de preto sobre a cor marron original. Aquele sujeito deixou sua marca na casca cicatrizada. Ele, na época, devia contar com uns vinte anos de idade. Já hoje, deve beirar os sessenta. Provavelmente tem netos e, ao passar por ali, deve lembrar-se dos dez minutos que precisou para ferir a árvore e marcar um dos momentos de sua vida.

Nunca feri caules com lâminas de aço mas, com certeza, machuquei muita gente quando articulei sons com minha língua. Talvez elas até nem se lembrem mais de mim. Mas eu sei que em seus corpos ficaram as cicatrizes com as quais precisaram e, talvez, ainda precisem conviver. Sei! Além de dissabores também posso ter oportunizado sabores. Assim, envolto nos meus pensamentos, segui adiante. De repente, olhei prá mim e também vi cicatrizes...

Um comentário:

Anônimo disse...

Renato, que texto bonito!!!
Régis