11.8.11

Dízimo – um discurso insustentável?


Criei o diálogo abaixo a partir de uma palestra que ouvi da boca do colega Pastor Werner Fuchs, quando da minha participação numa Conferência de Obreiros (como se dizia) em Ijuí (RS), no ano de 1997. O texto estava amarelado dentro de uma de minhas pastas, mas o salvei dando vida ao mesmo nos personagens Oraldo, Felício e Amadeus. Penso que vale a pena ler o mesmo. Boa leitura!

A vida tem destas coisas. Era dia 11 de abril de 1999 e o Aeroporto Salgado Filho de Porto Alegre estava “bombando”. Os alto-falantes tinham acabado de anunciar que os passageiros com destino a Munique, na Alemanha, teriam que entrar na fila de embarque que levava ao portão B. Que surpresa! Depois de longos 30 anos de convivência nos bancos escolares da Escola Evangélica de Ivoti – um reencontro. Depois dos abraços; da troca de boas palavras e dos sorrisos marcados de alegria, o Oraldo, o Amadeus e o Felício se deram conta que iriam viajar juntos durante mais de 12 horas. A articulação gerou-lhes a possibilidade de sentarem juntos nos espaço correspondente à classe econômica. Foi nas poltronas centrais que os três amigos ocuparam a primeira fileira, bem em frente à tela maior. Ninguém dos três prestou atenção em mais nada e o diálogo tornou-se vivo por causa das relembranças de cada um.

O avião já tinha se estabilizado quando as aeromoças começaram a servir bebidas. Lá fora a lua crescente brilhava sobre uma parte da terra.

Oraldo – A lua está crescente...

Amadeus – Como você sabe se ela está crescente ou decrescente?

Oraldo – Simples! Se ela conseguir segurar “água” dentro da sua concavidade ela é crescente. Se não conseguir segurar “água” é porque é minguante.

Felício – Muito boa essa da “água”. Você não perdeu sua praticidade...

Amadeus - Nunca me esqueço das discussões que tínhamos com o “Salomão”. O Oraldo não dava folga pro “querido mestre”...

Felício – É verdade! Foi ele quem nos preparou para entrarmos na Faculdade de Teologia em São Leopoldo.

Oraldo – A antiga FACTEOL que hoje se chama Faculdades EST. Às vezes fico pensando... Se eu não tivesse optado em ser pastor da IECLB acho que eu seria professor.

Amadeus – Você ia se dar bem nesse “negócio” Oraldo. Mas mudando um pouco o rumo da nossa conversa, estou viajando pra Baviera para conversar com as lideranças da “Landeskirche” sobre projetos que dizem respeito ao bom uso dos bens da natureza. E vocês?

Oraldo – Meu objetivo é estudar durante três meses um pouco mais sobre a História do “Gotteskasten”.

Felício – Rapaziada! Vocês são demais, mas o “papai” aqui está indo gozar 30 dias de férias – nada mais do que isso. Mas me diga Oraldo: Tu que és mais teólogo que nós dois juntos, como é que tu estás percebendo esta história do “dízimo” na nossa IECLB?

Oraldo – Boa essa do “mais teólogo”... O grande argumento em favor do dízimo que sempre se ouve fora e dentro da IECLB é que sua prática é bíblica. É dessa forma que se sustenta o dízimo como a única forma legítima de se contribuir para Deus e a Igreja.

Amadeus – Tá certo!... Mas ao mesmo tempo este argumento também gera acanhamento; silêncio entre os que não apregoam o dízimo; entre os que praticam outras formas de contribuição.

Oraldo – Lembram do Schwantes? Ele dizia que no Antigo Testamento o dízimo era arrecadado para o sustento dos sacerdotes, dos levitas e do templo (Gênesis 14.20; 28.22; Levíticos 27.30ss.) Naqueles tempos o dízimo também servia para socorrer necessitados (Deuteronômio 14.28ss; 26.12ss).

Felício – Não sou tão versado no assunto como aquele nosso professor, mas também entendo que o dízimo não era a única forma de arrecadação naquelas épocas do passado. Li outro dia que havia outras formas de se levantar dinheiros que variavam conforme o período histórico e a atividade produtiva.

Oraldo – Você está certo “garoto”. É provável que a forma mais antiga de arrecadação esteja ligada à tradição pastoril e ao êxodo. Naqueles tempos se falava da “oferta das primícias” ou dos “primogênitos” (Gênesis 4.4; Êxodo 13.15; 34.26; Números 3.13; 8.17; 18:12ss; Deuteronômio 26.2; 2 Crônicas 31.5; Provérbios 3.9ss; Neemias 10.35ss; Lucas 2.22ss.).

Amadeus – Pelo que eu sei também havia as “ofertas voluntárias”. Outro dia criei um estudo bíblico sobre “dízimo”. Ainda lembro da palavra de Êxodo 25.2 e 35.5 onde está sugerido que a “oferta” pode acontecer a partir do “coração de todo homem que se mover para isso...”. Sim! Também havia as numerosas “ofertas instituídas” no censo (Êxodo 30.12ss) e nas festas. Nas ofertas proporcionais à renda (Deuteronômio 16.17); nas trazidas por gratidão (Levítico 7.12); nas ofertadas pelo pecado cometido (Levítico 4.3ss); nas ofertas que aconteciam pelo ciúme (Números 5.15); nas ofertas que se tornavam verdade por causa da purificação (Levítico 12.6; 14.13); nas ofertas que eram doadas para consagrar lugares (Números 7.15; 1 Reis 8.64); nas ofertas que tinham o objetivo de resgatar coisas consagradas (Levítico 27.16ss), etc., etc., etc.

Felício – Grande Amadeus! Continuas com a “cabecinha” oxigenada amigão. Vale dizer que todas essas ofertas e que todas essas primícias, assim como todos os dízimos, serviam igualmente a manutenção dos levitas (Números 18.11s; Neemias 12.44).

Oraldo – Certo Felício. Por vezes as contribuições ao templo eram negadas, ou prestadas apenas parcialmente, ou ainda trazidas por mero ritualismo (Neemias 13.10; Malaquias 3.7ss). Outras vezes elas consistiam num peso exagerado para o povo, de modo que surgiram reformadores e profetas para denunciar e corrigir estas distorções (2 Crônicas 24.4s; 31.5; Miquéias 6.6s; Amós 5.22ss).

Felício – Oh loco! Dava pra gente escrever um pequeno tratado com base no conteúdo desta conversa. Mas deixando a graça de lado, vale notar que, alem das contribuições ao templo, o Antigo Testamento também determinava a realização da “misericórdia e da justiça” que se resumiam em “esmolas” e “boas obras” (Levíticos 25.35; Deuteronômio 15.7; Provérbios 31.20).

Amadeus – Que é isso gente! Nós aqui, sobre o Oceano Atlântico falando de dízimo. Só pastores da IECLB mesmo pra ficar ruminando assuntos desta monta.

Oraldo – É a nossa vida Amadeus. O que é que nós vamos fazer? Outro argumento em defesa do dízimo é que Deus prometeu “abençoar” regiamente aos dizimistas.

Felício – Olha gente! Eu carrego a impressão que essa palavra dá a entender que Deus só abençoa quem é dizimista com felicidade; com prosperidade e com reconhecimento.

Oraldo – É! Tens razão. Hoje se diz que as bênçãos só podem ser comprovadas na vida espiritual e material do cristão, bem como no sucesso das Igrejas dizimistas.

Amadeus – Meio complicado isso daí! É fácil notar que essa afirmação não tem fundamentação bíblica e constitui uma distorção teológica perigosa.

Oraldo – Certo! O versículo mais citado nesse discurso e isso até com um triunfalismo raso, é Malaquias 3.10 onde se lê “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa e provai-me nisto diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós bênçãos sem medida.”

Felício – Que coisa! A gente tem que ter coragem para pensar um pouco mais profundamente sobre esse assunto.

Amadeus – Nós temos! (Amadeus retira sua Bíblia da sacola de mão e abre-a) Escuta aqui ó: No capítulo 3; versículo 8 de Malaquias se lê sobre uma acusação de que os dízimos e as ofertas não foram integralmente trazidos de modo que o pronome “todos” que consta no versículo 10 não se refere apenas ao dízimo, mas inclui, logicamente, também as demais ofertas devidas.

Oraldo – Já estudei este texto Amadeus. Percebam que a causa de retenção dos dízimos e das ofertas é que, na situação precária de estiagem (“abrir as janelas do céu”, v. 10); de pragas (“gafanhoto” devorador, v. 11) e de vinhas estéreis (v. 11), cada um cuidava primeiro do seu próprio sustento e, assim, “defraudava a Deus” (v. 8).

Amadeus – Sim! E isso revela falta de confiança em Deus, a quem se ofereciam as sobras - se houvessem. E claro, em decorrência, a bênção é prometida não para a prática mecânica do dízimo, mas para quando for restabelecida a confiança prioritária em Deus que proverá o necessário. Esta confiança se mostra nos atos do povo.

Oraldo - Segundo a expectativa da época pós-exílica que é posterior à construção do segundo templo (ca. 470 a.C.), as bênçãos descritas em Malaquias 3.10-12 (especialmente no v. 12, "as nações verão", cf. Isaías 62.2; Zacarias 8.13) são sinais do futuro escatológico, do tempo de salvação (K. Elliger, ATD 25, 6a ed., p. 188 e 211). Ou seja, por serem promessas para o fim dos tempos, era preciso ter cuidado de não aplicar as bênçãos assim, sem mais nem menos ao cotidiano e à prosperidade material no mundo secularizado.

Amadeus – Não carrego a mínima dúvida que a intenção de Malaquias era produzir arrependimento e humildade. Mas a palavra sobre a possibilidade de pôr Deus a prova e obter Dele provas através da prosperidade material soa arrogante na boca dos dizimistas.

Felício – Ei pessoal! Se bem me lembro Jesus classificou como diabólico o ato de “tentar a Deus” (Mateus 4.7; Deuteronômio 6.16)! Deus declarou que ele não necessita das ofertas do povo (Isaías 43.23ss; Salmo 50.7-15). Mais que isso! Para Ele o doador experimenta a alegria e a aceitação de Deus não porque dá o dizimo, mas porque oferece de coração, liberalmente, tudo o que dá (1 Crônicas 29.9; Provérbios 11.24s; Lucas. 6.38).

Oraldo – (Pensativo) Quanto ao “sucesso” visível do dizimista... No Antigo Testamento as primícias eram ofertadas no início da colheita ou da produção animal, ao passo que o dízimo podia ser calculado somente no final da colheita.

Felício – É! Se o cristão separa 10% do salário no começo do mês, está de fato ofertando primícias. Se o faz de coração, confiando que Deus provera o necessário para o mês todo, essa primícia em forma de dízimo é uma contribuição válida, como a de qualquer outro percentual ou valor. Além disso, ha um efeito prático: Para uma pessoa pouco disciplinada em seu orçamento, oferecer mensalmente primícias de 10% significa a aprendizagem de autocontrole e previsão de gastos, de modo que ela experimenta maior disponibilidade financeira.

Amadeus – Vou abrir meu coração com vocês! Tenho para mim que além de distorcer as evidências do Antigo Testamento, o discurso a favor do dízimo também deixa totalmente de lado o testemunho do Novo Testamento. É que os próprios termos “dar a décima parte” (apodekateuein, dekatoun) aparecem somente em 3 ocasiões: Mateus 23.23; Lucas 11.42; Lucas 18.12 e Hebreus 7.5s. Acho isso um tanto pouco.

Oraldo – (Rindo) Jesus ironiza o exagerado rigor legalista dos fariseus e insiste no cumprimento da justiça; da misericórdia e da fé. Mesmo que Jesus diga que deveriam trazer os dízimos sem negligenciar as obras de caridade, a ênfase não está na defesa do dízimo, e sim na misericórdia e justiça. Portanto o dízimo é circunstancial; é uma variável sócio-cultural, ao passo que a justiça é essencial; é do coração; é uma exigência constante nas diversidades históricas.

Felício – Creio que é por isso que, ao radicalizar, indo à raiz, ao coração, Jesus relativiza o dízimo. Para Ele o “túdimo” da viúva pobre vale mais que as ofertas dos ricos (Marcos 12.41s). Quem não renuncia a tudo o que tem, não pode ser discípulo (Lucas 14.33; Filipenses 3.8) e ao que renunciou, é que são prometidas bênçãos (Lucas 18.28s).

Oraldo – Em Lucas 18.12 também se lê que o dízimo serve para a auto-justificação do fariseu. O fariseu cria que para estar bem com Deus, bastava cumprir exteriormente os ritos e respeitar as separações sacrais. Jesus foi claríssimo ao dizer que o fariseu dizimista não é aceito por Deus (v. 14), e que o “arrependimento” sincero do publicano era o caminho para a reconciliação com Deus, bem como o dinamismo para a comunhão. “Buscai primeiro...” (Mateus 6.33).

Amadeus – A gente não pode ficar repartindo isso daí com todo o mundo, mas em momento algum, em Atos ou nas Cartas se dá qualquer notícia de que as primeiras Comunidades Cristãs tivessem praticado o dízimo ou que ele fosse um alvo recomendável, apregoado pelos apóstolos.

Felício – Certo Amadeus! Os primeiros cristãos tinham tudo em comum e a necessidade do próximo constituía a medida de sua contribuição (Atos 2.45; 4.32). O pensamento de Paulo é inspirado pelas primícias, oferecidas espontaneamente no inicio da semana e proporcionais às possibilidades da pessoa (1 Coríntios 16.2), segundo cada um se propôs no coração (2 Coríntios 9.7).

Oraldo – Estou convicto de que para o apóstolo existe uma troca de bens materiais e espirituais (louvor e orações) entre doadores e beneficiados, pela qual se estabelece a igualdade (2 Coríntios 8.8ss). Ele destaca também que oferecer as primícias era uma forma de consagrar a totalidade da produção (Romanos 11.16), e enfatiza a contribuição generosa a partir da liberdade evangélica (Romanos 12.8).

Amadeus – Rapaziada! Estou aqui ouvindo vocês e me lembrei de Hebreus 7. Este texto aborda de forma exaustiva a questão do dízimo, mas, curiosamente, os defensores do dízimo o ignoram, passam rapidamente por ele, ou o omitem porque não lhes convém. Já se deram conta disso?

Felício – Verdade! E não o citando este texto de Hebreus também passa despercebido pelos demais evangélicos. Alguém de vocês já estudou este texto mais a fundo?

Oraldo – Fiz isso! Hebreus 7 afirma que o dízimo é coisa da Velha Aliança que, por ser fraca é inútil (v. 18) foi totalmente superada (v. 12) e revogada pelo sacerdócio perfeito de Cristo, que não pertence a tribo dos levitas (v. 13). Jesus, o fiador de uma aliança superior (v. 22) é o “sacerdote perfeito para sempre” (v. 17, 21, 28).

Amadeus – Tudo a ver. Jesus não provinha da tribo dos levitas, a quem era devido o dízimo, e sim, da tribo de Judá (v. 14), sendo constituído sacerdote não pela linhagem carnal, mas segundo a ordem de Melquisedeque (Salmo 110.4), o misterioso rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que abençoou Abraão e já recebeu dele o dízimo (Gênesis 14.17-20).

Felício – Então “não há mais nenhum motivo para que quem crê em Cristo de pagar o dízimo”, é isso?

Oraldo – Calma! O significado de Melquisedeque, rei da justiça, enseja uma reflexão sobre o que é justo. Pois, além de ser uma pratica “imperfeita e legalista” e superada pelo Evangelho; pela Nova Aliança, o “dízimo é profundamente injusto”.

Amadeus – Gente boa! Uma conversa dessas, nós só podemos conversar aqui dentro do avião. Já pensaram se o “Frida” fica sabendo?

Felício – (Rindo alto) Apesar da aparente justiça (tratamento igual para todos), logo se descobre o engano. Pois tratar de forma igual pessoas desiguais, não vai diminuir, mas antes aumentar as injustiças. Por exemplo, para um operário de salário mínimo, dar o dízimo significa tirar o pão da mesa, enquanto alguém com salário de R$ 3.000 reais pode contribuir com R$ 300,00 e ainda dispor de uma boa sobra para supérfluos.

Oraldo – Sempre defendi a tese de um escalonamento progressivo: Quanto mais rico, maior o percentual. Portanto, se alguém introduz na Igreja simplesmente o dízimo, não está afrontando e espantando a Cristo, o rei da justiça?

Amadeus – Pregadores do dízimo são judaizantes, à semelhança dos pregadores da circuncisão criticados em Gálatas 5. Fazer do dízimo uma lei ou um cavalo de batalha para membros, Comunidades e Paróquias é uma distorção teológica grave. Revela não somente desconhecimento bíblico e ingenuidade ética, mas, sobretudo uma assustadora facilidade de trocar o coração pelo rito; a essência pela aparência; a fé pela vantagem; a liberdade pela coação.

Oraldo - Sem dúvida há uma enorme necessidade de se repensar a argumentação e a prática de contribuição na Igreja. Mas será válido ofertar primícias de 10% a Deus, assim como de qualquer outro percentual, somente se forem dadas de coração, livre e generosamente, sem “calculismos”, de acordo com a prosperidade de cada um, pois a Deus pertencem 100% de tudo (Salmo 24.1).

Felício – Já passa da meia-noite. Penso que estejamos sendo inconvenientes com quem quer dormir. Continuamos essa conversa amanhã, depois do café. Boa noite!

Amadeus – Boa noite.

Oraldo – Acho que vou demorar pra adormecer. Em todos os casos, boa noite...

2 comentários:

Rabiscos do Renato disse...

Obrigado, meu irmão Renato! Gostei mesmo da tua reflexão sobre o dízimo. Essa vai no meu arquivo de material. Sinto-me feliz por ver nessa tão biblicamente fundamentada reflexão um grande amparo para a minha singela reflexão como resposta ao artigo no Joinville Luterano, de que o dízimo seria necessário para a nossa salvação. Aliás, recebi um telefonema do autor defensor do dízimo de que eu estaria levando um montão de gente para o inferno devido meu artigo. Quanta falta de discernimento como resultado de conhecimento da Bíblia, não acha também? - Enfim, muito obrigado! Grande abraço, Rolf.

Elemer Kroeger disse...

Brilhante.
Vai ficar para os meus apontamentos, quando no futuro tiver que falar de "Dízimo".