9.2.12

No Marienplatz - em Munique!


Um dia destes acomodei-me sobre o sofá e assim, sem mais nem menos, fui me deixando embalar pelo barulho da chuva leve que caía sobre os impermeáveis telhados alemães. Não demorou quase nada, eu já estava ladeado pela companhia das minhas lembranças. Sem resistência aos meus clamores internos, fui esquentar água. Com arte, enchi metade da cuia com a verde erva mate, presenteada por amigos brasileiros. No fundo do meu ouvido deixei soar velhas cantigas da gaúcha Elis Regina. Enquanto isso permiti que meu pensamento voasse solto, porque sustentado pelas asas dessa saudade que, de vez em quando, bate compassada e gera frescor na minh’alma.

Tais momentos sempre me conduzem para a rua. Vesti-me adequadamente e lá me fui para ver o movimento, ver a vida acontecendo e, no meio de tudo, também ouvir as sirenes dos carros da polícia, me enxaguar da fria realidade, colocar meus pés no chão da cidade. Entremeio os barulhos ao ar livre, ouvi a propaganda do Circo Roncalli que viajava sobre um antigo caminhão. O som dos alto-falantes remeteu-me aos tempos de guri. Já vi ruins e bons circos. Ninguém vai ao circo por causa da grandeza ou do colorido de sua lona. Ninguém o procura só para mirar o elefante ou a girafa. Os trapezistas fazem o espetáculo, mas também não são o carro chefe. A diferença quem faz sempre é o palhaço. É ele quem traz a vida ao mundo edificado debaixo da lona.

Segui caminhando por sobre as calçadas e finalmente embarquei no metrô. Já acomodado a um dos seus bancos continuo instigado a não parar minha reflexão. Sim! A Igreja é tal como um “Circo” onde eu, o ministro, sou o palhaço. Posso atrair ou até afastar as pessoas da “arquibancada”. Luto para que fiquem ali. Que venham a crer. Que seu testemunho de fé brote e cresça ao natural na família e na vizinhança. Que experimentem da esperança da qual eu tenho experimentado. Com esse objetivo crio os programas, desgasto-me, empenho até a vida da minha família, muitas vezes.

De repente, aqui e ali, “uma gargalhada”. É a Palavra de Deus que atingiu; que mexeu com alguém. A pessoa atingida não mais se contentará em estar na “arquibancada”, sentada nas cômodas cadeiras, nos cômodos bancos. Ela tentará, isto sim, fazer parte do “Circo”: quererá pisar no tablado, maquiar o rosto, dar de si para o bem comum. “Pescar” pessoas de dentro da sociedade para que também tenham o privilégio de experimentar o que experimento. Isso não é uma loucura?

Desembarco do trem subterrâneo. Opto pelas escadarias. Não me atrai o elevador, nem tampouco a escada rolante. Lá fora está o Marienplatz (a Praça Central de Munique). A chuva se converteu em garoa. Abro meu guarda-chuva e fico atraído pelo belo cântico. Eu conheço a música que está sendo cantada em alemão. A voz feminina mexe comigo e cabe muito bem no lugar, repleto de turistas: - “Deus teu amor é qual paisagem bela…” Paro para ouvir e também conversar. A irmã está motivada a testemunhar com a “ferramenta” que bem domina: o canto. Muitos passaram. Já eu e outros paramos para ouvi-la. É assim que o Reino de Deus cresce: a partir do testemunho criativo de pessoas comprometidas com a proposta cristã. Cada um com seus dons, com seu “ferramental”.

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