7.2.12

Metanoia no Rio Pardinho!


Chovia pouco naqueles dias e o suor escorria das axilas. A estrada estava empoeirada e, nela, nossa turma caminhava descalça. Eventuais pedrinhas machucavam nossos pés que contatavam com a terra, nada mais do que isso. Seriam seis quilômetros de caminhada até o rio. O banho nas águas frescas do rio compensaria qualquer desgaste. Eu estava receoso. Descia-me um frio na espinha, uma espécie de medo que corria pelas minhas veias, pelo fato de não saber nadar e, também, por ter fugido de casa. Mas eu não queria perder a oportunidade do convívio com meus “amigos do peito”. Nossa caminhada transcorria num ritmo alegre. Sim, lá ao longe já podíamos divisar o mato que ladeava o “Rio Pardinho”.

Eu estava vivo e sabia que deveria “honrar meu pai e minha mãe”; que não poderia ter tomado a decisão de me ausentar de casa, sem pedir permissão. Aprendera essas verdades na Igreja quando participara do Culto Infantil, da Escola Dominical e, até, do Ensino Confirmatório. No entanto, a companhia dos amigos me era importantíssima e eu não queria perdê-los. Enfim, tomei a decisão de desobedecer outro dos bons Manda-mentos de Deus. Pessoas que estão “casadas” com a Lei são, sempre de novo, atraídas a ser infiéis à mesma. Como eu não fugia à regra, novamente, dei um “chute” Naquela que deveria me resguardar das “tormentas da vida”.

Finalmente o rio. O Léon subiu numa das árvores que ladeavam o barranco e amarrou uma corda, num dos galhos mais altos. Agarrou-se com as duas mãos à madeira roliça e, incontinenti, lançou-se sobre as águas, num salto acrobático de fazer inveja a John Weissmüller – o Tarzan dos anos 60. Todos faziam fila para experimentar aquela “delícia circense”. As árvores testemunhavam nossa liberalidade. O balanço do salgueiro e todo aquele verde somado ao azul do céu, cheio de nuvens brancas, parecia gostar daquela anarquia menina. Pensativo, coloquei-me à margem dos acontecimentos. A água fria batia nas minhas canelas. Sim, todos mergulhavam dando gritos e saltos de alegria. Naquela tarde fugidia, tudo estava permitido para todos, menos para mim. Mentiam-me dizendo que as águas não eram profundas. Brincavam com a minha inexperiência e a cabeça doía por causa disso. Deixei por isso e decidi dar um último passo em direção ao banho refrescante.

A água me envolvia. Debati-me muito enquanto as borbulhas de ar saiam pela boca. Os pés tocavam na areia e eu voltava a subir. O azul do céu misturava-se com a natureza. Eu, desesperado, queria gritar, mas a voz não saia da garganta e o “filme da minha vida” desenrolava-se no meu cérebro, ponto por ponto. Meu organismo ia enchendo-se de líquido e a morte abraçava-me com “abraço morno”. Sim, eu estava “desquitado da Lei” e, em consequência, sofrendo por este ato.

Meus amigos pensavam que eu estivesse brincando n’água. Lógico que aqueles poderiam ser meus últimos esforços e, então, tirei um berro bem do fundo da minh’alma: Nuurrrgghhh. Eu já sentia o “bafo da morte” ao meu lado. Tinha vontade de dormir e relaxar. De repente, uma força puxou-me para a margem e fui salvo. Todos se assustaram. A água escura insistia em sair aos borbotões do interior do meu organismo. Minha boca, meu nariz e minhas orelhas faziam o papel de “canos condutores” de sujeira para fora de mim.

Da pedra sobre a qual fui jogado, corriam filetes d'água. O céu estava azulado e emoldurado pelo verde claro e sadio da copa das árvores. O rio continuava calmo no seu leito, levando pequenos galhos, numa bonita viagem sobre a superfície. Limitei-me a encarar os amigos. Confiara demais naqueles companheiros que, até ali, considerara como riqueza de valor incalculável. Sim, eu repensaria meu modo de vida. Agora, necessitava da solidão.

Precisava meditar sobre aquele momento de desilusão que o “afastamento de Deus” me promovia. Deus mostrara Sua força num amigo. Há pouco eu cheirava o “cheiro da morte” e, agora, estava vivo. No meio do “burburinho” eu parecia ouvir Deus dizer: - “Quero contar contigo para um Projeto que tenho no coração – vêm”! Preciso dizer que me senti carregado por Deus, enquanto tomava o caminho de casa.

Eu tinha “apostado todas as minhas fichas” em pessoas. Não fosse um daqueles colegas, quem sabe, naquele momento, a guarnição do Corpo de Bombeiros da cidade já estivesse acionada. A decisão estava tomada: a partir daquele dia eu tentaria viver minha vida de modo diferente. Melhor dizendo, tentaria reconstruí-la sobre outros alicerces. Eu precisava tomar uma decisão. E assim, passaram-se alguns meses.

Certo dia, fui a um armazém da nossa vizinhança. Escorado ao balcão, estava um moço que puxou conversa comigo: - “Conheço teu pai. Vi tua família na Igreja outro dia desses. Quero te convidar para participar do Grupo de Jovens do qual faço parte. Aparece!... Reunimo-nos sempre aos sábados, das 20.00 às 22.00h. Estudamos a Bíblia e cantamos músicas cristãs. Praticamos jogos de salão, fazemos excursões e um bocado de outras coisas mais. Vais gostar. Vêm conferir!...”

Desanimado da vida eu tinha praticado atitudes que nunca sonhara tentar praticar. Assim, fui me deixando levar pela “correnteza” dos acontecimentos, mas isso não me trazia a paz. Não tinha sentido viver daquela maneira, só e afastado de tudo e de todos. Sim, aquele jovem acabara de me fazer um convite. Será que o mesmo tinha a ver com o projeto de Deus comigo? Será que Deus usara-o para acordar-me de um sono?

Aquele moço mexeu comigo ao convidar-me a participar de seu grupo. Claro que reagi com carinho àquela proposta. A sala estava iluminada. De repente, chegaram as pessoas. A roda cresceu e me aqueci com o “fogo do carinho” que me doavam. Então me lembrei da conversa que tivera com meu professor de Religião. Ele disse: - Sabe Renato! Um dia desses o apóstolo Paulo ficou assustado, ao descobrir que não era o “homem bom” que pensava ser. Depois dessa constatação ele se deu conta de que quando Deus abençoa uma pessoa, ela passa a não ter problema em reconhecer seu pecado. E é justamente esse estado de espírito à liberta do peso de precisar “brilhar” como filha de Deus na sociedade. Ela passa a aceitar-se com todas as agressividades que carrega no peito e isso, porque sabe que Deus já a aceitou tal como é. Ah que coisa boa o “ar” que se respirava naquela sala. Pois passei a ser membro ativo no referido Grupo.

Outro dia fui um Retiro de Lideranças. Senti-me importante, pois iria estreitar laços com a nova turma de amigos. Eu estava cheio de expectativas. Queríamos promover uma proposta cristã na sociedade santa-cruzense e o dia de sábado dilui-se em meio aos conteúdos que sorvíamos. Planejamos idéias a curto, médio e longo prazo. Esperança - isso mesmo, essa era a palavra da hora. Sonhamos; olhamos para frente e decidimos doarmo-nos em prol dos outros. Lembro que os olhos da turma brilhavam de expectativa.

Nas primeiras horas da tarde daquele domingo vieram os jogos de salão. Depois, mais um tempo de manuseio da Bíblia. Era bom e agradável conversar com o pessoal. Dava certa vontade de ficar morando por ali naquela sala. Amanhã já seria segunda-feira e tudo voltaria ao normal. Era preciso espichar ao máximo aqueles momentos de indizível prazer. Vimos que a humanidade estava afastada de Deus o qual não queria esse afastamento. Para mudar o rumo das coisas, Ele enviara Jesus Cristo ao mundo. Este, por sua vez, envolvera-se com mulheres e homens no intuito de fazer a reaproximação com o Pai, ou seja, construir pontes de acesso ao Reino de Deus.

Acesso que estava viável a cada um de nós, ali, naquele lugar. Bastava buscar-se a Deus em oração. Dizer-lhe que estávamos arrependidos de andarmos desgarrados do nosso “Bom Pastor”. Falar-lhe da vontade de recomeçar a vida sob Suas Idéias. Embarcar de uma vez por todas dentro daquele “barco” cheio da proposta cristã que levava à ressurreição. Tudo eram palavras que “martelavam” meu consciente.

A janta seria o sinal do fim daqueles momentos domingueiros. Inconformado, pedi que o encontro fosse estendido. Os líderes reagiram positivamente. Ouvi boas respostas para minhas perguntas. Minhas incertezas deixavam-se varrer, uma a uma, pela palavra segura da liderança. Enfim, às 23.00h organizou-se um círculo. As mãos foram dadas e começamos a orar.

Lembro que naqueles momentos de oração visitou-nos uma espécie de “vento” que invadiu a sala. Moças e rapazes que, antes, nunca haviam orado, agora oravam. Cargas de culpa eram liberadas dos ombros de quase toda turma. Ao cabo de meia hora aconteceram espontâneos abraços. E, depois que todos se ausentaram, fiquei ali, refletindo, repassando os conteúdos aprendidos. Mais tarde caminhei a pé, dentro da madrugada, rumo ao meu quarto. Considerava-me um filho de Deus. Sim, eu possuía este referencial desde a meninice. Agora estes conceitos tinham se aclarado dentro do meu ser, do meu viver. Faria tudo para nunca mais perder aquela certeza.

Abri a Bíblia e entendi o que nela estava escrito. Estudei-a e não consegui mais ficar quieto. Abria a boca dentro da sala de aula e nos espaços do Grêmio Estudantil. Comecei a engajar-me na sociedade. Outro dia fui convidado a fazer a pregação, num Culto Dominical. Ousei crescer e precisei de espaço. A vida passou a ser novidade prá mim. Coisas antigas não valiam mais quando aprendi que, em Cristo, sou um alguém, possuo um nome. Ficou-me claro que, enquanto viver, sou convidado a lutar contra o pecado. Entendi que Deus me equipa com todas as forças para tais intentos.

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