29.2.12

Quaresma - Pausa para o Perfeccionismo!


Em dez dias nós podemos fazer muitas coisas: comprar um terreno; nos livrar das espinhas e até emagrecermos cinco quilos. Conquistei tua atenção? Vem aí a Quaresma e nós teremos quarenta dias diante para tentarmos viver sem falsas ambições. Depois disso vem a Páscoa, a Festa da Ressurreição.

É do senso comum que não se pode dar mostras de fraqueza. Assim, continuamos dando tudo de nós no sentido de melhorarmos nossa vida. Será que esta postura não dá indícios de que nos auto-escravizamos? Claro que a ambição não é ruim, mas e se nós a usássemos neste tempo que antecede a Páscoa para nos policiarmos contra as falsas ambições que sempre de novo fazem casa em nós?

Emagrecer; ficar mais bonito; ser o mais inteligente – esses são “comandos” que já são inseridos nas nossas cabeças no tempo da infância e da adolescência. Reza a pesquisa que de cada três crianças em idade escolar, uma precisa ajuda para avançar nos estudos. Os pais desta “meninada” não cansam de deixar claro: para se adquirir um lugar na sociedade, há que se batalhar até as últimas consequências. No passado, quando as famílias eram maiores, estas expectativas se diluiam entre três ou mais filhos. Hoje, no entanto, as mesmas se concentram sobre um ou dois, ou seja, a pressão a qual as crianças estão submetidas tornou-se bem maior.

Observo os meus pré-confirmandos e percebo que seu “dia de trabalho” se assemelha ao dos adultos. Os pré-adolescentes têm que carregar um tremendo peso sobre suas costas. Peso que não é fácil de ser carregado, visto que se encontram em fase de desenvolvimento físico e emocional. Não fica só nisso. Se exige disciplina das meninas e dos meninos, enquanto praticam judô e ou futebol de salão; enquanto participam de aulas de música e ou de dança. Hoje em dia estes momentos de lazer se converteram em compromissos e claro, neles se espera o máximo de desempenho. Ora, as crianças também deveriam ter um tempo completamente livre para desfrutar a vida em contato com a natureza. Isso sempre fez, continua fazendo bem. Educadores do passado bateram nesta tecla com insistência. Aqui lembro de Pestalozzi.

Leio sobre muitas pessoas da Terceira Idade. Elas, sempre de novo, nas entrelinhas, deixam escapar que se pudessem viver novamente, cometeriam mais erros, não tentariam ser mais inteligentes do que verdadeiramente eram e que, também, não seriam mais tão higiênicas. Elas abrem seu coração e explicitam que, se pudessem voltar à adolescência, comeriam mais sorvete e menos verduras; que teriam mais faltas em sala de aula e que só tirariam boas notas por acaso; que andariam mais de roda gigante; que gastariam mais tempo na colheita daquela florzinha amarelinha conhecida como bem-me-quer. Pessoas que só se cobram por aquilo que deixaram de fazer, acabam esquecendo rapidamente daquilo que foi e continua sendo belo: um riacho; uma história contada; um pássaro que canta perto da janela.

Pessoas que tem algo a dizer na área da saúde concordam entre si: Hoje são muitas as pessoas que não vivem como manda a Medicina. Desgastam-se por demais com precauções para, mais tarde, morrerem saudáveis. O fato é que, mesmo as pessoas que morrem saudáveis, morrem definitivamente. Então, o que fazer na próxima Quaresma? Sugiro que nos treinemos, durante as sete semanas, a nos contentarmos com aquilo que é suficiente. Se agirmos assim, a satisfação vai brotar ao natural em cada um de nós. O nosso valor não está nas coisas que fazemos, mas na pessoa que somos.

A Quaresma é uma boa chance de santificarmos o o Domingo no nosso dia-a-dia. Neste tempo podemos decretar menos poder à nossa ambição. Sim, depois de um longo dia de trabalho, não necessitamos cozinhar uma refeição sofisticada e ou lavar toda a roupa suja que se encontra no cesto de roupas. De repente, já seria suficiente só passar a camisa que será usada no dia seguinte. Que tal?

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