27.2.12

Robinson Cavalcanti - Recife, 11 de setembro de 1992!


A notícia de que o Bispo Robinson Cavalcanti e sua esposa assassinados a facadas e que seu filho adotivo é o principal suspeito chocou-me agora mesmo.

http://www.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?materia=20120227073634&assunto=70&onde=VidaUrbana

Convivi com este teólogo nos inícios dos anos 90. Naquela época escrevi um livro que ele prefaciou em Recife, no dia 11 de setembro de 1992. Nunca mais o vi, só li. Foi com saudades que reli seu carinhoso escrito:

Cristão não se preocupa com política. Renato se preocupa. Cristão não se mete em política. Renato se mete. Cristão deve fazer apenas discurso sobre política (“profetismo retórico”). Renato se engaja. Cristão faz simpósio sobre política em hotel cinco-estrelas, debate filigranas em salas de aula de seminário, pesquisa em confortáveis gabinetes, bibliotecas e museus. Renato atola os pés no barro. Estranhíssimo esse Renato! Parece que gosta de nadar contra a maré, com esperança de que ela reflua em seu favor. Em vez de escrever dissertação de mestrado ou tese de doutorado, Renato nos apresenta um depoimento vivo.

A IECLB é uma Igreja de alemães, com os pés aqui e a cabeça na Europa? Renato Luiz Becker, pastor da IECLB, assume a causa da justiça em terras de Santa Cruz (Alta) da cabeça aos pés. Evangelical só quer saber do céu? O evangelical Renato sabe o que é preciso fazer na terra enquanto o céu não vem. (“seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”), lamentando as limitações dos que só aspiram ao céu ou se esgotam na terra.

Abraham Kuyeper, pastor reformado, muda a face da Holanda, Martin Niemoeller resiste ao nazismo, o mesmo regime martiriza, Dietrich Bonhoeffer. Martin Luther King Jr. tem um sonho, que uma bala assassina quer transformar em pesadelo, mas que termina por socializar esse sonho em milhões de corações. Desmond Tutu faz tremer os alicerces do apartheid. Arriscados são os caminhos dos ungidos do Senhor, desinstalados e desinstaladores, que ousam além da rotina paroquial. Oscar Romero nos lembra que os que “perdem a cabeça” de João Batista ainda o fazem literalmente, enquanto que leigos conservadores ou clérigos amofinados apenas (e “bondosamente”) o fazem ao nível do simbólico.

Creio que nos anos 90 não vamos mais discutir se devemos ou não nos envolver na vida política, mas por que, como e para que: ética, métodos, partidos etc. Em uma sociedade de classes, os interesses de cada um poderão falar mais alto do que o núcleo comum dos valores do Reino, os cristãos estarão divididos, com interesses e projetos institucionais antagônicos. Os pastores voluntários ou de tempo parcial – e os leigos – levam a vantagem de serem menos vulneráveis, de terem menos ameaçado o leite de suas crianças.

O contexto externo, secular, pesará em nossa caminhada. O país fechou, a Igreja também. O país abriu, a Igreja idem. Esperamos que o país continue aberto.

Fico honrado em escrever estas palavras de apresentação do livro do Renato.

Embora de uma geração mais velha (tenho quase meio século de terráqueo), integramos a mesma confraria pioneira, martirizada, mas minoria em crescimento. Como Renato, sou cristão, protestante, evangelical, pastor, petista e... candidato derrotado a deputado estadual.

Renato, a Igreja precisa de nova Reforma, o país de nova Independência, a esquerda de uma nova Revolução, os teólogos progressistas de uma metanoia (conversão) de fé, humildade e coerência, a decaída natureza humana do constante milagre do novo nascimento.

Roma não se fez (nem se desfez) em um dia. A História é dinâmica. Não podemos fazer tudo, mas somos responsáveis por tornar o Evangelho relevante à nossa geração.

Os que têm fé no que esmagou a cabeça da serpente continuarão a andar descalços nos ninhos de cobra, não por vanglória, mas por obediência. Quem sabe, Renato, um dia, saradas as feridas, ânimo revigorado pelas orações dos imãos e uma rodada de chimarrão, você não possa dicionar um capítulo 4 a este seu livro: “O vice-versa do vice-versa” ou “Eleitores cristãos: ói nóis aqui travez”.

Sonhadores de todo mundo, unamo-nos!

2 comentários:

Rabiscos do Renato disse...

O colega Clovis Horst Lindner postou uma reação no seu Blog: http://clovishl.blogspot.com/2012/02/nao-se-cale-apesar-de-tudo.html

Rabiscos do Renato disse...

Tivemos vários encontros.Lembro dele em 79, no Geração 79, nos anos 80 num retiro da Munil, no encontro em Campinas/SP, em Quito, ... sempre rico nas abordagens e focado no Reino de Deus, mesmo muitas vezes contrariando seus irmão de caminhada.E de modo tão estúpido... Um dia entenderemos... Ilmar