14.2.12

LÁ NO MORRO DO CHAPÉU!


Corria o ano de 1987. Naquela época eu trabalhava como pastor em Cruz Alta (RS) Meu dia-a-dia estava sempre repleto de atividades. Meus filhos cresciam meninos. Minha esposa mostrava-se engajadíssima nas coisas da vida. Meu vigor aflorava em meio aos 33 anos de idade. Chamavam-me de criativo, comprometido com o novo. Naquela época, nós ministras e ministros da IECLB dávamos tudo de nós para momentos de comunhão. Lembro que eu amava por demais aqueles reencontros de três dias com meus amigos e colegas na Casa de Retiros, em Sapucaia do Sul. Sim, eu iria viajar em torno de 600 km com a Empresa Ouro e Prata. Organizei minha saída da Comunidade Luterana. Comprei a passagem e, depois de despedir-me dos meus, embarquei à meia noite numa viagem que duraria seis horas.

Dentro de mim estava tudo muito claro. Eu viajaria até Porto Alegre. Uma vez lá, viajaria de carona com ex-colegas da Paróquia Matriz, onde trabalhei como Pastor Auxiliar, no início dos anos 80. Bons sentimentos iam brincando dentro de mim quando nosso ônibus estacionou na rodoviária de São Leopoldo, à margem esquerda do Rio dos Sinos. O céu não estava mais escuro e sim muito azul. O sol começava a esquentar a manhã daquela primavera. De volta à BR 116 vi, pela janela do coletivo, a antiga fábrica de artefatos plásticos onde meu pai trabalhava em 1967.

A vida tinha sido dura conosco naqueles tempos. Estávamos em dificuldade. Lembro que a minha primeira refeição do dia resumia-se numa banana, numa xícara de café preto e num pão com melado. Sim, meus pais viviam uma enorme crise. Meus irmãos menores não percebiam o drama familiar. Eu estudava no Ginásio da Paz, pertinho da ponte do Rio Guaíba. A mensalidade do Colégio já estava atrasada mais de meio ano. O diretor da escola já tinha me chamado ao seu gabinete para uma conversa téti-a-téti. Meus sapatos estavam com a sola quase furada e minha mãe juntava todos os “troquinhos” para eu poder ir e vir, diariamente, nos velhos ônibus verdes da empresa Central. Confesso que me envergonhava dos meus colegas por causa da situação vivida.

Meu professor de Português marcou-me muito naquela época. Ele parecia desconsiderar minha classe social. Convidava-me a participar das pequenas peças teatrais que ele mesmo escrevia. Levava-me a séria nas minhas dificuldades. Desafiava-me a ler os livros da biblioteca. Exaltava minhas virtudes diante da classe. Por tudo isso, acabei tomando-o como um modelo. Nunca me esqueço de um passeio organizado por ele, ao Morro do Chapéu. Saímos da Escola bem cedinho, com destino à cidade de Esteio. De lá, a pé, nos deslocamos ao referido Morro. A cerração era fortíssima. Foi uma caminhada inesquecível. Ainda lembro o nome de alguns dos colegas. Agora, da minha viagem eu divisava o tal Morro. Vinte anos tinham se passado. Olhei para a minha mala e não titubeei. Iria repetir aquela caminhada. Assim, sem muito refletir, fiz sinal ao motorista de que iria descer. Desci numa das paradas de Sapucaia do Sul e, de mala em punho, saí cortando caminho por entre as vilas, os “pombais” da hora.

Caminhei muito. Eu estava forte, suando. Sim, eu iria terminar aquela empreitada. Andei, andei, andei... Num dado momento comecei a me distanciar das casas populares. Sim, era aquele o caminho. Mas, que estranho! Não havia movimento sobre a estrada que se mostrava abandonada, já há alguns anos. Aqui e ali cresciam arbustos no meio da mesma. Perguntei para um senhor que capinava seu pedaço de chão, sob o sol quente, logo ali sob o barranco. Ele informou-me que o velho caminho estava impedido. Que logo ali à frente havia uma cerca de arame farpado. Que o atual dono não queria que invadissem suas terras. Que era melhor eu voltar.

Refleti um pouco sobre a informação, mas mesmo assim, teimoso, segui em frente. Tinha gastado muita energia para dar meia volta, sem mais nem menos. Com cuidado, atravessei a cerca com seus “espinhos de aço”. Caminhei por dentro do mato. Confesso que fiquei com medo de encontrar alguma cobra. A decisão de voltar ficava cada vez mais difícil. Lá ao longe eu conseguia ouvir o latido de alguns cães. Segui em frente, me esgueirando por entre a vegetação que tinha tomado conta daquele caminho que, outrora, eu tinha trilhado com meus colegas da escola.

Naquelas alturas eu já não sentia mais prazer na minha aventura. Estava um pouco irritado comigo mesmo. Que bom! O dito morro parecia mais próximo. A vegetação foi escasseando e o caminho se re-definindo. Assim, fui percebendo que estava dentro de uma propriedade particular. Apressei o passo. Queria sair dali o mais rápido possível. De repente, um grito muito rouco e raivoso: - Alto lá!

Virei-me para o sujeito que gritava e vi que empunhava um facão. Dei meia volta e fui ao seu encontro, sem largar da minha mala. Ele, com a enorme faca em riste, me ouvia deixando escapar chispas de ódio dos seus olhos. Expliquei-lhe que era pastor da Igreja. Ele se fez de desentendido. Expliquei-lhe que eu, profissionalmente, desempenhava as mesmas funções que um padre da Igreja Católica. Mostrei-lhe minha Bíblia. Deixei claro que não carregava nenhuma arma. O fato é que eu estava com a adrenalina alteradíssima. Minha boca estava seca. Depois de muita conversa, pediu que seguisse em frente. Ficaria atrás de mim. Por uns quinze minutos, caminhamos em silêncio. Pela sombra que o homem projetava à minha frente, percebi que seu facão ainda permanecia em posição de ataque. Deduzi que aqueles poderiam ser meus últimos minutos de vida. E se o caminho que seguíamos não conduzisse para fora da propriedade? Comecei a pedir a ajuda de Deus, em silêncio.

De repente, a rua. O caminho novo. Mas antes dele, um enorme portão fechado com cadeado. Para cuidar do dito cujo, uma pequena família que morava num casebre ao lado. O sujeito do facão explicou a situação ao porteiro e este, desconfiado, trocou algumas palavras com sua mulher. Depois disso, abriu o cadeado girando a chave sem tirar os olhos de mim. Saí procurando dar passos seguros. Enquanto me afastava, não ousei olhar para trás. Segui em frente. Eu queria chegar ao meu destino. O Morro parecia perto. Logo notei que havia perdido o meu melhor casaco. Que importava? Eu tinha tido a chance de uma nova vida. Comecei a caminhar ligeiro. Depois de uns quinhentos metros, corri até perder o fôlego. Nisto, ouvi o ronco do motor de um automóvel. Era um dos meus colegas que vinha motorizado ao mesmo encontro. Freou o carro e ofereceu-me carona. Perguntou-me pelo por que da minha palidez. Depois de me ouvir, deu meia volta no carro. Fomos reclamar o casaco perdido. Ao estacionarmos em frente ao portão, fomos atacados pelo sujeito que me acompanhara até o mesmo. Embarcamos no carro e fugimos em disparada.

Contei a minha história num e noutros círculos. Fiquei sabendo que ali era um lugar muitíssimo perigoso. Que algumas quadrilhas da grande Porto Alegre usavam aquelas terras para desmanche de carros roubados. Que já havia acontecido assassinatos e “queimas de arquivo” ali naquelas paragens. Que mais uma vez, Deus tinha cuidado de mim. Hoje, vinte e seis anos depois, fico a pensar: e se o sujeito tivesse “me apagado”? Só depois de quatro ou cinco dias é que a minha família iria perguntar por mim. Os colegas reunidos simplesmente imaginariam que eu tivesse desistido do encontro e não se dariam a maiores preocupações. Memórias que hoje, resolvi repartir neste Blog.