30.5.11

Quinto Mandamento - Não Matarás! (Êxodo 20.13)


Durante as últimas semanas, enquanto me preparava para tratar do tema "aborto" me veio a pergunta: O que é que pode melhorar a nossa vida e, ao mesmo tempo multiplicar a nossa felicidade? Penso que descobri a resposta: os Dez Mandamentos. Só eles podem melhorar e multiplicar a felicidade na nossa vida.

Observem o Quarto Mandamento. Ele nos diz que “devemos honrar pai e mãe”. Esse mandamento está escrito para filhas e filhos adultos. Eles é que são os responsáveis pelos seus pais que envelheceram. Sim, os filhos são desafiados a promover o envelhecimento dos pais sob bases dignas. Aqui alguns detalhes precisam ser levados em conta: No futuro as nossas crianças nos tratarão exatamente igual o tratamento que dispensamos aos nossos pais nos dias de hoje. Somos observados e copiados. O nosso tema para os próximos encontros é “aborto”. Creio que também seremos observados nas nossas atitudes em desfavor ou a favor da vida. Vamos lá!

O que é que melhora a nossa vida e multiplica a nossa felicidade? Aqui a leitura do Quinto Mandamento é fundamental: “Não matarás.” (Êxodo 20. 13)

Penso que todos nós aceitemos este Mandamento sem qualquer restrição; sem qualquer reflexão crítica. Creio que, se abrirmos a Palavra de Deuws, cada um de nós dirá que “isso é absolutamente certo – que não devemos tirar a vida de quem quer que seja”. Também suspeito que se saíssemos para as calçadas de nossas cidades e perguntássemos aos transeuntes o que pensam sobre este Mandamento, que eles diriam? “Está correto”. Ponto. Nada mais a dizer...

É interessante, mas o que parece ser tão claro e inequívoco tem aspectos que precisam ser aprofundados – sim senhor. Por exemplo: Alguém poderia perguntar o que realmente significa “matar” ou “assassinar”? Também poderíamos perguntar o contrário: Como é que se formula este Mandamento de forma positiva? Como é que se cuida e se protege a vida para que ninguém seja morto? Onde estão realmente os limites para não matar uma pessoa? O que fazer em casos limítrofes? Vamos tentar apalpar um pouco algumas possíveis respostas para estas questões, mesmo que seja difícil de respondê-las.

Não devemos matar. Por trás deste mandamento está a questão fundamental que precisa ser sabida: É preciso se ter o maior respeito possível pela vida humana. Toda a vida, tanto a minha como a tua, é original; é única e, portanto, insubstituível. O Deus descrito na nossa Bíblia é o próprio Deus que quer a vida; que dá a vida única a nós. Ele, no tempo certo, recolhe esta vida novamente para perto de si. Pode-se dizer que Deus é o autor da vida e que Ele não abre mão destes Direitos Autorais, tanto na hora de dá-la, quanto na hora de tirá-la.

Daí que a vida não é nossa, nem a minha vida nem a vida dos outros seres humanos. Somos mordomos da vida; designers da vida, mas a vida própriamente dita é de Deus. Deus é o Senhor da vida. A pessoa que ousar tocar na vida criada por Deus está tentando se adonar da mesma e isso Deus não admite sob hipótese alguma. Quem mata uma pessoa mata a imagem de Deus e, ao mesmo tempo, desafia Deus pra uma luta. Observem que este Mandamento não tem a ver só entre a relação de um homem com outro homem, mas com a relação do homem com o próprio Deus.

Tu não deverás matar. Esse Mandamento quer deixar claro que não nos cabe derramar sangue inocente. Que não podemos matar uma pessoa por esta ou aquela razão. Aqui eu não quero me debruçar sobre o comportamento do policial quando ele se encontra diante do dilema: atirar ou não atirar. A questão também não é tratar deste tema difícil de como os soldados têm que se comportar numa guerra. A questão que quero trabalhar é sobre a morte não autorizada; sobre o abate intencional; sobre a negligência de um ser humano que mata outro ser humano simplesmente por matar. Aqui precisamos pensar desde os ladrões que, para roubar, assassinam pessoas até os motoristas que, com alguns miligramas de álcool no sangue, atropelam e tiram a vida de semelhantes. Isso não é da vontade de Deus.

Suspeito que todos nós reagiríamos rapidamente com palavras do tipo: Claro! Somos completamente contra que se mate uma pessoa dessa maneira. Muito bem! Martin Luther analisou este Mandamento e converteu esta proibição numa oferta. No Catecismo Maior ele escreve que “não devemos prejudicar o nosso vizinho, mas ajudá-lo e protegê-lo” Que, se não o fizermos, estaremos descumprindo o referido Mandamento e assim matando-o.

Isso quer dizer que quando agimos movidos pelo medo; pela indiferença e ou pela negligência, estamos prejudicando uma pessoa; estamos abrindo a porta para a possibilidade da entrada; da experimentação da morte; estamos transgredindo o Quinto Mandamento. Quando em determinados momentos ouvimos o que está por detrás do referido Mandamento: protege o teu vizinho; certifique-se que ninguém se machuque; salve vidas; proteja vidas; então, este Recado de Deus, alcançado por Moisés já está mais próximo de nós; já se tornou um pouco mais sério. Mas daí então nós não podemos mais fugir da pergunta: Onde o curso da vida de uma pessoa corre riscos; é cortado, será que, se tivéssemos praticado a intervenção correta, nós poderímos ter impedido o avanço da desgraça?

De repente, vocês, tal como eu, de forma bem espontânea estejam se lembrando de um ou outro incidente onde se machucou e se maltratou pessoas que, quem sabe, mais tarde, vieram a falecer por causa destes ferimentos recebidos. Nestas horas, quantos ficaram passivos, só observando? Uma tal situação é obviamente difícil, especialmente porque a vida é cara. Será que eu iria reagir como reagi em Porto Alegre (RS), nos idos de 1982, quando a polícia bateu num papeleiro... A questão é: o que está por detrás duma tal atitude. Eu respeito a vida do outro e eu estou pronto para entrar em sua defesa?

Esta questão já é anterior daquela que se coloca nestas situações dramáticas que comentamos a pouco. Colocamo-nos entre aqueles que se encontram à margem da nossa sociedade: os desprezado e ridicularizados? Isso é suficiente? Quais são os nossos conceitos de Demência? Como falamos deles aos outros? Quais são os nossos conceitos das Pessoas com Deficiência? Quais são os nossos conceitos sobre as Mães Solteiras da nossa sociedade? Qual é o nosso conceito sobre os Estrangeiros que vivem entre nós? Como é que nos comportamos quando se faz chacota; piadas com o o objetivo de colocar essa gente de lado; humulhando-os nas nossas rodinhas de conversa? Temos que ter clareza sobre esse assunto: Se não tivermos coragem de nos expressarmos e nos colocarmos ao lado dessas pessoas para protegê-las, como é que teremos disposição de proteger alguém quando a coisa descambar para as vias de fato?

Sinceramente! Espero que vocês estejam sentindo, imaginando que este Mandamento tenha mais implicações em si do que se pensava até aqui. O “Não Matarás” implica pensar já agora nas possibilidades de impedir alguém de, no futuro, vir a matar; a proteger, desde agora, os nossos “vizinhos” da morte do seu caráter. Protegêmo-los ou ajudamos a matá-los?

Trata-se de um grande tema. Deus nos questiona se estamos prontos a proteger e a preservar vida de um outro ser humano e isso já desde agora, pensando em longo prazo para que, no futuro, não aconteça que alguém acabe morrendo por causa de nossa desatenção aqui no presente.

Se olharmos mais de perto, com mais cuidado para dentro da sociedade onde vivemos, todos os problemas ficarão mais claros diante dos nossos olhos. O fato é que tanto no Antigo como no Novo Testamento há a concordância de q1ue o Povo de Deus tem a tarefa especial de se colocar como protetor dos que são mais fracos.

Quem ousa vasculhar a Bíblia (especialmente no Antigo Testamento, mas também no Novo), percebe que nela sempre se encontram três grupos de pessoas pelas quais o Povo de Deus é responsável: Em primeiro lugar, pelos bebês e pelas crianças. Em segundo lugar, pelos idosos; pelas pessoas pessoas doentes e pelas pessoas com deficiência. E último lugar, pelos órfãos; pelas viúvas e pelos estrangeiros que vivem em nossa terra. Eis aí três grupos de pessoas que não dispõem de força e poder de se proteger; que, em si, não têm nenhuma chance de se defender; que, em si não têm a capacidade de se colocar para dizer a que vieram. São pessoas que precisam de outras pessoas que estejam à disposição delas; que as protejam; que se coloquem ao seu lado. Isso é muito difícil e nós vamos entender o porquê a partir dos exemplos que vou citar:

Faz tempo que essa discussão sobre o aborto; sobre a pesquisa de células-tronco; sobre engenharia genética e sobre eutanásia vem acontecendo no nosso meio. Com esta discussão se abre novamente, pelo menos aqui neste espaço, proponho discutirmos sobre o conceito da “vida indigna de vida”. Alguns sustentam que existe uma vida que não é digna de ser protegida e preservada. Trata-se de uma vida que se pode matar sem se sentir culpado por causa disso. O que é mesmo “uma vida indigna de vida”?

Primeiro exemplo: Outro dia ouvi de um político que “a vida só deve ser preservada quando existe dignidade própria”. Ele queria dizer com isso que um embrião não tem este sentimento e que, portanto, não precisa ser protegido. Será que um bebê de seis meses de idade, tem sentimento de auto-dignidade; de auto-estima? Será que num homem que sofre do Mal de Alzheimer, existe o sentimento de auto-dignidade; de auto-estima? Ou num paciente em coma? Onde estão os limites? Não há dignidade para aquelas pessoas que, pelo “andar da carruagem” já não são mais capazes de ter dignidade, auto-respeito? Vida indigna de viver?... Hummmm...

Segundo exemplo: Li numa revista que certo cientista chamado Stackelberg fez sua tese de doutorado para constatar que “em uma época de escassos recursos públicos, seria mais barato não permitir que crianças com deficiência sobrevivessem; que a riqueza privada e pública aumentam quando não há crianças com deficiência... O que dizer quando um “cientista” chega a uma conclusão destas no seu dotorado; quando há pessoas e grupos que batem palmas quando uma aberração destas é dita? Onde estão as fronteiras, onde está a “vida que vale a pena ser vivida”? Onde e em que áreas devemos proteger a vida conforme a sugestão do Quinto mandamento?

Terceiro exemplo: na Inglaterra se permitiu que as seguradoras pudessem fazer um teste genético para prever o risco potencial de seus clientes terem graves problemas genéticos. Que argumento usaram para conseguir este intento? Ora, pagar seguro para uma pessoa com problemas genéticos é muito caro e não queremos pagar este preço - argumentaram.

São apenas exemplos. Daria para se dizer que são a ponta dos icebergs onde estão centradas algumas das grandes discussões do momento. Eu não trouxe estes exemplos para que vocês balancem suas cabeças e digam: Êta mundão!... Onde é que chegamos... Estes exemplos nos fazem despertar para o fato de que temos responsabilidade na nossa sociedade. A nossa responsabilidade não está em todos nos fazermos especialistas em engenharia genética ou em aborto e ou ainda na investigação em células-tronco. Nada disso! Isso nós nem temos condições de fazer, pois nos seria uma sobrecarga completa.

Mas nós somos responsáveis para chamar a atenção daqueles que estão dando o “ponta-pé” inicial nestes assuntos de menos vida. Se, por exemplo, “pintar” uma conversa dessas na nossa família; na nossa Comunidade; no trabalho; entre colegas ou onde quer que seja – lá podemos ser formadores de opinião. Ajudaremos muito nessa reflexão se colocarmos nossas perguntas na pauta. Se tivermos talentos para isso, escrevamos cartas para quem direito, etc.

Agir em prol da vida também pode significar tornar-se conhecedor do assunto que abrange certa área. Como eu já deixei claro, não podemos ser especialistas em todas estas questões, mas é importante que consideremos mais uma vez que, aqui e ali, pode haver uma pessoa que conheçamos e que esteja precisando ser protegida diante de um ssunto desa monta. De repente existe um grupo que te é simpático e que pode te ajudar a levantar o a voz contra essa ou aquela “barbaridade”.

“Não matarás”. Sim, nós não devemos matar. Essa ação inicia lá onde eu posso proteger uma pessoa ou um grupo de pessoas vulneráveis e que, por isso memo, correm perigo de ser maltratadas e ou até mortas. Eis aí um vasto campo sobre o qual todos nós podemos refletir e depois tomar decisões concretas.

Se levarmos em conta a história dos últimos duzentos ou trezentos anos, então certamente perceberemos que não há nenhuma coincidência no fato de que foram os cristãos que começaram a trabalhar no sentido de valorizar a vida, a partir da compreensão do Quinto Mandamento de Deus. Foram eles que criaram as Aldeias SOS; a Cruz Vermelha; Caritas; Brot für die Welt; a Cruz Azul; etc. Os cristãos sempre foram os iniciadores que deixaram claro: porque eu não quero matar, vou proteger a vida e precisamente as vidas daqueles que, certamente, correm mais perigo.

“Não matarás.” Atrás deste Mandamento está o mandado diaconal de cada Comunidade. Nós sempre somos chamados a proteger e a preservar a vida daqueles que não tem forças próprias para se proteger; daqueles que estão sendo oprimidos por terceiros; daqueles que se encontram à margem e que, por isso mesmo, podem vir a morrer a qualquer momento.

Um último pensamento: o Cardeal Von Galen da cidade de Münster, disse em 1941, durante o Terceiro Reich, em um sermão: “Tu e eu, nós só viveremos o tempo em que formos produtivos; só até o momento em que seremos considerados produtivos pelos outros?” Ele fez essa pergunta num contexto onde o Regime Nazista praticava a eutanásia. Naqueles tempos as pessoas com deficiência eram assassinadas sem piedade, porque não poderiam ser produtivas.

Hoje, em 2011, essa questão é novamente atual: a vida só vale a pena enquanto ela é produtiva? Como é que tratamos desse assunto entre os nossos pares; na nossa sociedade; na nossa Comunidade? Quem não pode participar trabalhando, quem não pode pagar o que se espera para a Comunidade também é considerada uma pessoa valiosa e importante? Eu sonho que descubramos que o critério de produtividade é assassino. Temos que refletir sobre isso com muita profundidade.

A vida de uma pessoa tem valor inestimável porque ela é a imagem de Deus; porque ela é criada por Deus; porque ela é única e não porque ela é produtiva e consegue fazer isso ou aquilo com muita mobilidade. A pessoa tem a vida, porque Deus lhe dá a mesma e porque Deus espera que a “presenteada” desfrute desfrute o fato de ser Sua imagem. Só Deus pode tirar tirar a vida de da pessoa e Ele faz isso no tempo certo. Naturalmente são muitas as questões que se colocam quando pessoas se encontram gravemente doentes: doentes terminais; doentes que precisam sofrer indeterminadamente sobre a cama. Onde estão os limites para a sua dor, mesmo com todo o aparato médico que se tem à disposição hoje em dia?

Aqui convido vocês a ouvir este Quinto Mandamento de uma forma bem nova. Não matarás! Deus quer a vida e Deus protege a vida, mesmo quando a vida, na perspectiva de nossa sociedade, não é mais produtiva e só traz gastos. Deus protege a vida. Deus quer que nós vivamos, não importa o que temos a pagar; não importa quão saudáveis ou quão doentes estejamos.

Aprendamos juntos a respeitar e proteger a vida. Tenhamos sempre esta questão em mente: Onde é que, como Comunidade, temos responsabilidades especiais para uma pessoa e ou um grupo de pessoas que esteja ameaçado por esta ou por aquela razão? Como é que podemos proteger a vida destas pessoas; deste grupo de pessoas e proporcionar-lhe a dignidade que merecem da parte de Deus?

“Não matarás.” Esta proposta vai muito além do que se pensava anteriormente, certo? Vamos juntos buscar e compartilhar o caminho que temos de caminhar...

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