9.5.11

Orar pelos mortos?


Será que podemos orar pelos mortos? Hoje são muitas as pessoas que se ocupam com esta pergunta. A resposta à questão “se podemos orar por pessoas já falecidas” não pode se alicerçar nos nossos sentimentos. Vamos ver o porquê disso!

Para a Bíblia, o ato de se “orar pelos mortos” é completamente estranho. Mas então, de onde veio este costume na Igreja? Qual foi a filosofia que oportunizou esta prática no meio eclesiástico? É assim que as pessoas que choram o luto quase sempre se mostram inseguras quanto ao futuro dos seus que se foram daqui. Ora, esta insegurança serve de “feto” para acalentar incertezas: Será que eles se encontram bem neste período compreendido entre a morte e a ressurreição? Alicerçados nesta dúvida que se decide orar pelos mortos.

A pergunta “Orar pelos mortos é possível?” começou a ser ventilada nos tempos em que a cristandade se preocupou com o “tamanho”; com a “longevidade” do tempo que acontece entre a morte e a possível ressurreição de uma pessoa. Algo tinha quer ser feito em favor dos que experimentavam o “tempo da morte” que tanto podia ser “pequeno” como “grande”. As pessoas falecidas experimentavam “felicidade” ou “tristeza”, enquanto esperavam pela ressurreição? Foi na busca por uma resposta a esta pergunta que a Igreja se “aconchegou” à idéia de que era necessário o sacrifício; a obra em prol daquele que, com a experimentação da morte, se tornara enfraquecido. Fazer o quê? Orar por ele para que fosse aceito por Deus.

Nós não temos condições de alcançar a salvação pelo nosso próprio esforço; através das nossas próprias obras; por meio dos nossos próprios méritos. Nós só alcançamos a salvação por causa do presente que Deus nos alcança via nosso Senhor Jesus Cristo. As nossas orações não têm o mínimo poder de melhorar a situação dos que morreram. Para as pessoas falecidas continua valendo o que, em vida, ouviram sobre o Filho de Deus. A questão fundamental sempre é se as pessoas falecidas aceitaram ou rejeitaram o Evangelho, a Boa Nova de Salvação. Esta questão já deverá estar trabalhada quando a morte vier fazer visita.

Assim podemos concluir que a oração pelos mortos surgiu exatamente no momento em que as mulheres e os homens se afastaram da Verdade que brota de dentro da Escritura. O teólogo Schlatter nos ajuda a melhor compreender esse assunto quando escreve: “A Igreja logo caiu abaixo do nível da Fé Apostólica. Para Ela foi difícil “largar” os seus membros mortos no silêncio da misericórdia e da justiça de Deus.

Quando o conceito de “mérito” ressurgiu no seio da Igreja, ela, a Igreja, passou a ensinar sobre o “purgatório”. As preocupações com as possíveis difíceis experiências das pessoas nesta espécie de “ante-sala” do céu onde se tinha a chance de se “penitenciar” dos pecados cometidos levou a Igreja a orar pela abreviação daqueles também possíveis “duros momentos”. Notem que sempre que a Igreja ouviu e entendeu o Evangelho, ela deixou esta prática da “oração pelos mortos” de lado.

As irmãs e os irmãos que viveram na época da Reforma deram bom testemunho quando passaram a sepultar os seus mortos orando silenciosamente. Naquelas oportunidades eles não pelos mortos, mas sim pelos que ficavam. Liam o nome das pessoas falecidas nos Cultos para que a Comunidade se desse conta de que Deus tinha chamado um dos Seus, nada mais do que isso.

O teólogo Uhlborn escreve que “só podemos orar alicerçados na sólida Palavra de Deus que nos ordenou a orar e que, ao mesmo tempo, nos prometeu ouvir a oração”. Em nenhum momento Deus nos ordena a “orarmos pelos mortos”. Ele também nunca passou qualquer mensagem no sentido de que quisesse ouvir semelhantes orações. Não! Não é nossa função beatificar ou condenar pessoas. O Senhor Deus é o Juiz das pessoas vivas e também das falecidas. Tenhamos sempre clareza disso: Nós não seremos julgados a partir das oportunidades não vivenciadas. Nós seremos julgados, isso sim, pela “esnobação” das oportunidades de chegarmos perto de Deus que vivenciamos.

Ainda gostaria de chamar atenção para um grande perigo de quem sofre o luto. Muitas pessoas, de tanta preocupação com seus queridos falecidos, acabam se esquecendo dos que ficam; deixando de cuidar daqueles que estão próximos. A morte quer ser uma lembrança para que sempre estejamos alerta. O Salmo 90.12 nos ajuda nesta empreitada: “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.” Quer dizer, é nosso grande dever continuar repartindo a luz que Deus nos deu; lançando o Convite de Vida apresentado por Jesus Cristo às pessoas que circulam à nossa volta. Penso que esta palavra de Mateus 11.28-29 também nos ajude: “Vide a mim todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomais sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.”